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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Resumo: Uma Arqueologia do Saber (Roberto Machado)

MACHADO, R. Uma Arqueologia do Saber. In: ________. Foucault: a ciência e o saber. 4 ed.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. pp.111-142.

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Encontro do dia 03 de novembro de 2010.

Organizadora: Aline Cordeiro

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Machado aponta que o objetivo de As palavras e as coisas é fazer uma análise das ciências humanas considerando os saberes sobre o homem (algo que intriga Foucault). Em trabalhos anteriores (História da Loucura, Nascimento da Clínica) não foi possível abordar as questões que envolvem as ciências humanas, Foucault encontra solo fértil na era moderna que permite tematizar o homem com objeto e sujeito da ciência. Diferentemente da discussão filosófica sobre esse tema que leva para o lado da cientificidade e da matematização – Foucault traz uma análise arqueológica que contempla a historicidade que atravessa os saberes sobre o homem. Esse olhar que ele lança sobre as ciências humanas aponta que o homem tem duas funções no campo do saber (como algo empírico e também como fundamento filosófico). A primeira entende a vida, o trabalho e a linguagem como objetos, Foucault denomina isso como priori histórico, e a segunda entende o homem como algo que possibilita o saber. Essas funções explicam a emergência das ciências humanas que compreende o homem como representação.

Antes do saber moderno surgir, o saber clássico predominava e se constituía na ordem do científico, isto é, o conhecimento se baseava naquilo que era possível ver, excluindo o saber formado pelas lendas, tradições, entre outros. A título de ilustração temos o papel da descrição na história natural, que era traduzir em palavras o que era visto. Nessa descrição contemplavam-se aspectos essenciais dos seres vivos como as linhas, superfícies e volumes, desconsiderando os sentidos. A configuração do saber nesse momento sobre a natureza sofre modificações no final do século XVIII. A essência dessa mudança era que o conhecimento baseado no visível passa para a ordem do empírico, marcando a passagem da história natural para a biologia. Além disso, a economia também passa por transformações, ao passo que o trabalho é visto como uma atividade de produção que é a fonte valor, assim, o trabalho é considerado um produto. Outra área que tem sua base modificada é a linguagem que passa a ter uma organização, pois é considerada um objeto. Esses campos do saber – vida, trabalho e linguagem – ao serem tematizados, definem o homem como objeto do saber.

Como resultado da constituição do saber moderno, o homem passa a ter dupla função – como objeto e como sujeito do conhecimento – estabelecido a priori histórico. O espaço entre essas funções é o da representação. Na modernidade a representação vai se referir ao homem, isto é, ela deixa “de ser co-extensiva ao saber, ela se torna um fenômeno de ordem empírico que se produz no homem” (p.125). A representação que o homem faz sobre a vida, trabalho e a linguagem, são os objetos das ciências humanas, assim, essas ciências estudam o homem enquanto ele se representa fisicamente, a sociedade em que trabalha e o sentido das palavras.

A abordagem que Foucault faz do método arqueológico para estudar as ciências humanas, revela uma característica que é “a definição da especificidade do objeto de análise como sendo a episteme” (p.132). A questão da episteme surge nas reflexões de Foucault, em um momento de investigação de uma ordem interna que constitui o saber. Nesse sentido, episteme não é o mesmo que saber. A episteme revela uma ordem histórica dos saberes anterior à uma ordem do discurso definida pelos critérios de cientificidade e dela independente.

À luz do exposto, a episteme de uma época revela a relação da arqueologia com a história das idéias e com a história epistemológica. A história das idéias é criticada em As palavras e as coisas, pois seu objetivo é explicar os saberes a partir de seu exterior, considerando as condições econômicas ou considerando outros saberes ou experiências que lhe teriam determinando a existência. Para Foucault essa perspectiva mesmo sendo explicativa, não dava conta do conceito. As palavras e as coisas abordam tanto exterior quanto o interior dos saberes, aponta seus conceitos essenciais e estabelece inter-relações conceituais, sempre no nível do saber. Outro aspecto criticado por Foucault é que a história das idéias procura numa mesma época contradições entre diferentes teorias. A análise feita em As palavras e as coisas entende essas contradições como um efeito de superfície, assim para se ter uma análise profunda e coerente é necessário realizar uma análise arqueológica que considera o a priori histórico de dado saber. Por último a história da idéias tem caráter contínuo, ao contrário disso, a arqueologia, assim como a epistemologia, apontam a descontinuidade na história.

A epistemologia e a arqueologia têm objeto de estudo distinto, enquanto uma tem como objeto as ciências, a outra tem como objeto o saber, respectivamente. Vale ressaltar que a arqueologia estabelece uma descontinuidade diferente da epistemológica, visto que, a arqueologia não contempla apenas uma ciência ou apenas um conceito, ela vai além e busca estabelecer o saber a partir de uma época. A arqueologia procura, no interior do saber, definir a verdade de uma época,e, assim estabelecer as condições de possibilidade desses saberes.

domingo, 26 de setembro de 2010

Membro do GEF defenderá dissertação

No próximo dia 30 de setembro, quinta-feira, Poliana Lachi, membro do Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM, defenderá publicamente sua dissertação de mestrado, intitulada "Um corpo de sentidos: discurso, subjetividade e mídia". A defesa começará às 14h00min e contará com uma banca formada pela Profa. Dra. Kátia Menezes de Souza, da UFG, e pela Profa. Dra. Maria Célia Cortez Passetti, da UEM, além, é claro, do orientador do trabalho, o líder do GEF, Prof. Dr. Pedro Navarro.
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

PLE promove palestra sobre Foucault

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O Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá convida todos os interessados a participarem da palestra "A Ordem do Discurso (Corpo, Língua, Imagem) em Textos Midiáticos: ressonâncias foucaultianas", a ser conduzida pelo Prof. Dr. Pedro Navarro, líder do GEF, e pela Profa. Dra. Kátia Menezes de Souza, da UFG. A palestra acontecerá no dia 30 de setembro de 2010 das 8h00min às 12h00min. As inscrições vão até o dia 29/09/2010 e custam R$10,00.
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GEF-UEM é credenciado pelo CNPq

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O Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM já recebeu o credenciamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. Para ter acesso às diretrizes de pesquisa do Grupo, às linhas de pesquisa e também ao currículo de seus participantes, acesse o link a seguir:

http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhegrupo.jsp?grupo=0329801Z7GS29I

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A Arqueologia do Saber: As Regularidades Discursivas (Parte 3)

_RESUMO_

FOUCAULT, M. As Regularidades Discursivas. In: ________. A Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. pp. 21-85.

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A Formação dos Conceitos

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“Antes que querer repor os conceitos em um edifício dedutivo virtual, seria necessário descrever a organização do campo de enunciados em que aparecem e circulam” (2008, p. 62). Essa organização compreende:

A) As formas de sucessão, as diversas disposições das séries enunciativas, os diversos tipos de correlação, os diversos esquemas: “A história natural, nos séculos XVII e XVIII, não é simplesmente uma forma de conhecimento que deu uma nova definição aos conceitos de ‘gênero’ ou de ‘caráter’ e que introduziu conceitos novos como o de ‘classificação natural’ ou de ‘mamífero’; é, antes de tudo, um conjunto de regras para dispor em série enunciados, um conjunto obrigatório de esquemas de dependências, de ordem e de sucessões em que se distribuem os elementos recorrentes que podem valer como conceitos” (2008, p, 63).

B) Formas de coexistência (campo de presença, campo de concomitância, domínio de memória).

C) Procedimentos de intervenção (técnicas de reescrita, métodos de transcrição, modos de tradução, aproximação, delimitação, transferência, a sistematização e a redistribuição).

“O que pertence propriamente a uma formação discursiva e o que permite delimitar o grupo de conceitos, embora discordantes, que lhe são específicos, é a maneira pela qual esses diferentes elementos estão relacionados uns aos outros: a maneira, por exemplo, pela qual a disposição das descrições ou das narrações está ligada às técnicas de reescrita”, etc. (2008, p. 65-6).

“Tal análise refere-se, pois, a um nível de certa forma pré-conceitual, ao campo em que os conceitos podem coexistir e às regras às quais esse campo está submetido” (2008, p. 66). “O nível ‘pré-conceitual’ assim descrito, em lugar de delinear um horizonte que viria do fundo da história e se amnteria atravé dela, é, pelo contrário, no nível mais ‘superficial’ (no nível dos discursos), o conjunto de regras que aí se encontram efetivamente aplicadas” (2008, p. 69).

“O campo pré-conceitual deixa aparecerem as regularidades e coações discursivas que tornaram possível a multiplicidade heterogênea dos conceitos, e, em seguida, mais além ainda, a abundância desses temas, dessas crenças, dessas representações às quais nos dirigimos naturalmente quando fazemos a história das idéias” (2008, p. 70).

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A Formação das Estratégias

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De antemão, há certa dificuldade de demarcar a formação das estratégias (temas e teorias), visto que Foucault admite não tê-los tratado especificamente em seus trabalhos anteriores à Arqueologia;

1ª direção: Pontos de difração: pontos de incompatibilidade, pontos de equivalência e pontos de ligação de uma sistematização;

Pontos de incompatibilidade: onde dois objetos, tipos de enunciação ou conceitos distintos não podem ocupar o mesmo lugar em uma série de enunciados (FOUCAULT, p. 73); no caso em que isso acontecer, corre-se o risco de gerar a contradição;

Pontos de equivalência: há a incompatibilidade entre os objetos, mas as condições de aparecimento destes são as mesmas;

Pontos de ligação de uma sistematização: cadeia de novos objetos, conceitos e tipos de enunciação que são dados a partir de determinados temas e teorias.

2ª direção: Determinação de uma economia da constelação discursiva: relação entre certas práticas discursivas e um domínio maior de regras de formação que determinam seu funcionamento, podendo servir como modelo concreto num nível de abstração mais elevado ou um sistema formal que indica bases de aplicação para outros discursos.

3ª direção: Estabelecimento de relação entre as práticas discursivas e as práticas não discursivas: regime e processos de apropriação do discurso e as posições possíveis do desejo em relação ao discurso. Não se trata de entender essas relações com as práticas não discursivas como extrínsecas às formações discursivas, mas sim como elementos também formadores.

“Ao final, Foucault sintetiza as oposições elencadas no desdobrar de suas quatro hipóteses sobre os agrupamentos discursivos e o funcionamento das regras de formação:

[...] E assim, como não seria preciso relacionar a formação dos objetos nem às palavras nem às coisas, a das enunciações, nem à forma pura do conhecimento nem ao sujeito psicológico, a dos conceitos, nem à estrutura da idealidade nem à sucessão das idéias, não é preciso relacionar a formação das escolhas teóricas nem a um projeto fundamental nem ao jogo secundário das opiniões (FOUCAULT, p. 78).

Podemos nos questionar, daí, sobre o que haveria de semelhante entre as palavras, as coisas, a forma pura do conhecimento, o sujeito psicológico, a estrutura da idealidade, a sucessão das ideias, um projeto fundamental e um jogo de opiniões, a ponto de serem todos negados na empreitada que pressupõe a demarcação de uma formação discursiva. De modo geral, devemos entender em todos esses conceitos e fenômenos o fechamento da prática discursiva ora a algo que é exterior ao discurso e que determina definitivamente todo seu movimento, ora um teor de escolha que é depositado nas mãos de um único indivíduo, ou ainda conceitos e teorias que preexistem à própria prática e que esperam para serem ativados. Em todos esses casos, a regularidade do discurso é dada pelo seu caráter local, fundante, homogêneo, e, de modo oposto, Foucault insiste, continuadamente, na dispersão.”

A Arqueologia do Saber: As Regularidades Discursivas (Parte 2)

_RESUMO_

FOUCAULT, M. As Regularidades Discursivas. In: ________. A Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. pp. 21-85.

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A Formação dos Objetos

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Foucault (2008b) nos oferece três direções para a análise da formação dos objetos. Elas competem a análise das:

1 – Superfícies de emergência;

2 – Instâncias de delimitação;

3 – Grades de especificação (diferenciação);

Contudo, Foucault insiste no fato de que elas não oferecem objetos que a ciência simplesmente relaciona, classifica, nomeia, elege e recobre: “O discurso é algo inteiramente diferente do lugar em que vêm se depositar e se suporpor, como uma simples superfície de inscrição, objetos que tenham sido instaurados anteriormente” (208, p. 48).

Esses planos de diferenciação aparecem isolados à primeira vista. Mas que relação podemos estabelecer entre eles? “E como podemos falar de um ‘sistema de formação’ se conhecemos apenas uma série de determinaçãoes diferentes e heterogêneas, sem ligações ou relações assinaláveis?” (2008, p. 48).

Deve-se, ao invés de tratar 1, 2 e 3 separadamente, estabelecer entre eles relações determinadas: entre os planos de especificação, entre as instâncias de delimitação e entre as grades de diferenciação: “São essas relações que, atuando no discurso psiquiátrico, permitiram a formação de todo um conjunto de objetos diversos” (p. 49).

“Generalizemos: o discurso psiquiátrico, no século XIX, caracteriza-se não por seus objetos privilegiados, mas pela maneira pela qual forma seus objetos, de resto muito dispersos. Essa formação é assegurada por um conjunto de relações estabelecidas entre instâncias de emergência, de delimitação e de especificação. Diremos, pois, que uma formação discursiva se define (pelo menos quanto a seus objetos) se se puder estabelecer um conjunto semelhante; se se puder mostrar como qualquer objeto do discurso em questão aí encontra seu lugar e sua lei de aparecimento; se se puder mostar que ele pode dar origem, simultânea ou sucessivamente, a objetos que se excluem, sem que ele próprio tenha de se modificar” (2008, p. 49-50).

Observações e consequências:

Não se pode dizer qualquer coisa, já que há um sistema de relações que regulam a existência ou extinção dos objetos, mas isso não é um obstáculo: “o objeto não espera nos limbos a ordem que vai liberá-lo e permitir-lhe que se encarne em uma visével e loquaz objetividade; ele não preexiste a si mesmo, retido por algum obstáculo aos primeiros contornos da luz, mas existe sob as condições positivas de um feixe complexo de relações” (2008, p. 50).

O conjunto de relações que determinam os objetos não definem a constituição interna do objeto, “mas o que lhe permite aparecer, justapor-se a outros objetos, situar-se em relação a eles, definir sua diferença, sua irredutibilidade e, eventualmente, sua heterogeneidade; enfim, ser colocado em um campo de exterioridade” (2008, p. 50-1).

Há relações primárias ou reais, relações secundárias ou reflexivas e então o sistema das relações discursivas. “O problema é fazer com que apareça a especificidade dessas últimas e seu jogo com as outras duas” (2008, p. 51).

As relações discursivas não são nem interiores nem exteriores ao discurso. Elas estão no limite do discurso e “determinam o feixe de relações que o discurso deve efetuar para poder falar de tais ou tais objetos, para poder abordá-los, nomeá-los, analisá-los, classificá-los, explicá-los, etc. Essas relações caracterizam não a língua que o discurso utiliza, mas as circunstâncias em que ele se desenvolve, mas o próprio discurso enquanto prática” (2008, p. 51-2).

“Em uma palavra, quer-se, na verdade, renunciar às ‘coisas’, [...] definir esses objetos sem referência ao fundo das coisas, mas relacionando-os ao conjunto de regras que permitem formá-los como objetos de um discurso e que constituem, assim, suas condições de aparecimento histórico; fazer uma história dos objetos discursivos que não os enterre na profundidade comum de um solo originário, mas que desenvolva o nexo das regularidade que regem sua dispersão” (2008, p. 53-4).

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A Formação das Modalidades Enunciativas

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A) Quem fala? à status de quem tem o direito a pronunciar o enunciado.

B) De onde se fala? à definir os lugares institucionais de onde o sujeito enunciador obtém seu discurso.

C) “As posições sujeito se definem igualmente pela situação que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou gupos de objetos: ele é sujeito que questiona, segundo uma certa grade de interrogações explícitas ou não, e que ouve, segundo um certo programa de informação, é sujeito que observa, segundo um quadro de traços característicos, e que anota, segundo um tipo descritivo, está situado a uma distância perceptiva ótica cujos limites demarcam a escala da informação, deslocam o sujeito em relação ao nível perceptivo médio ou imediato, asseguram sua passagem de um nível superficial a um nível profundo, o fazem circular no espaço interior do corpo” (2008, p. 58).

O status do enunciador, os lugares institucionais e as posições sujeito se dão na relação entre o discurso e um certo número de elementos distintos (vindos de outros lugares institucionais) que circundam a prática discursiva. Contudo, esse jogo de relações não é dado a priori, mas se estabele na própria prática discursiva: “Pode-se dizer que esse relacionamento de elementos diferentes (alguns são novos, outros, preexistentes) é efetuado pelo discurso clínico; é ele, enquanto prática, que instaura entre eles todo um sistema de relações que não é ‘realmente’ dado nem constituído a priori; e se tem uma unidade, se as modalidades de enunciação que utiliza, ou às quais dá lugar, não são simplesmente justapostas por uma série de contingências históricas, é porque emprega, de forma constante, esse feixe de relações” (2008, p. 60).

“O discurso, assim concebido, não é a manifestação, majestosamente desenvolvida, de um sujeito que pensa, que conhece, e que o diz: é, ao contrário, um conjunto em que podem ser determinadas a dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo. É um espaço de exterioridade em que se desenvolve uma rede de lugares distintos. Ainda há pouco mostramos que não eram nem pelas ‘palavras’ nem pelas ‘coisas’ que era preciso definir o regime dos objetos característicos de uma formação discursiva; da mesma forma é preciso reconhecer, agora, que não é nem pelo recurso a um sujeito transcedental nem pelo recurso a uma subjetividade psicológica que se deve definir o regime de suas enunciações” (2008, p. 61).

sábado, 14 de agosto de 2010

Arqueologia do Saber: As Regularidades Discursivas (Parte 1)

_RESUMO_

FOUCAULT, M. As Regularidades Discursivas. In: ________. A Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. pp. 21-85.

As Unidades do Discurso:

Proposta inicial do capítulo: criticar as noções que organizam os saberes pela continuidade, permanência e originalidade.

“Há, em primeiro lugar, um trabalho negativo a ser realizado: libertar-se de todo um jogo de noções que diversificam, cada uma à sua maneira, o tema da continuidade. Elas, sem dúvida, não tem uma estrutura conceitual bastante rigorosa: mas sua função é precisa” (2008, p. 23)

Noções criticadas por Foucault por corroborarem com o tema da continuidade: tradição, influência, desenvolvimento e evolução, mentalidade e espírito de uma época, livro, obra, autor, temas da origem e do já-dito.

A suspensão do tema da continuidade permite-nos vislumbrar uma dispersão de acontecimentos discursivos. Cabe ao analista restituir-lhes a unidade evidenciando uma regularidade entre os mesmos:

“Uma vez suspensas essas formas imediatas de continuidade, todo um domínio encontra-se, de fato, liberado. Trata-se de um domínio imenso, mas que se pode definir: é constituído pelo conjunto de todos os enunciados efetivos (quer tenham sido falados ou escritos), em sua dispersão de acontecimentos e na instância própria de cada um. Antes de se ocupar, com toda certeza, de uma ciência, ou de romances, ou de discursos políticos, ou da obra de um autor, ou mesmo de um livro, o material que temos a tratar, em sua neutralidade inicial, é uma população de acontecimentos no espaço do discurso em geral” (2008, p. 29-30).

As Formações Discursivas

Proposta inicial do capítulo: definir a “relações que podem ser legitimamente descritas entre esses enunciados, deixados em seu grupamento provisório e visível” (2008, p. 35).

A partir daí, o autor lança quatro hipóteses sobre as propriedades que evidenciam, entre os enunciados, laços e relações que não sejam justificáveis pelas unidades já colocadas em suspenso.

1ª hipótese: os enunciados se agrupam a partir do objeto ao qual se referem. Há enunciados que “[...] diferentes em sua forma, dispersos no tempo, formam um conjunto quando se referem a um único e mesmo objeto” (2008, p. 36).

A existência dos objetos é dada pelo como como os enunciados os recortam. Não existem objetos dados a priori e que, assim, consituem a existência dos discursos. Foucault nos lembra que “[...] a doença mental foi constituída pelo conjunto do que foi dito no grupo de todos os enunciados que a nomeavam, recortavam, descreviam, explicavam, contavam seus desenvolvimentos, indicavam suas diversas correlações, julgavam-na e, eventualmente, emprestavam-lhe a palavra, articulando em seu nome, discursos que deviam passar por seus” (2008, 36).

2ª hipótese: os enunciados se agrupam segundo a forma e o tipo de encadeamento destes enunciados. Na retomada que Foucault faz de suas reflexões em O Nascimento da Clínica, ele nos mostra que houve épocas em que os enunciados médicos provinham de “[...] um corpus de conhecimentos que supunha uma mesma visão das coisas, um mesmo esquadrinhamento do campo perceptivo, uma mesma análise do fato patológico segundo o espaço visível do corpo, um mesmo sistema de transcrição do que se percebe no que se diz (mesmo vocabulário, mesmo jogo de metáforas)” (2008, p. 38).

Esse tipo de encadeamento não funciona, contudo, de modo contínuo. Para Foucault, “[...] Se há unidade, o princípio não é, pois, uma forma determinada de enunciados” (2008, p. 38), mas um conjunto de regras que torna possível, simultaneamente, “[...] descrições puramente perceptivas, mas, também, observações tornadas mediatas por instrumentos, protocolos de experiências de laboratórios, cálculos estatísticos, constatações epidemiológicas ou demográficas, regulamentações institucionais, prescrições terapêuticas” (2008, pp. 38-9)

3ª hipótese: os enunciados podem ser agrupados segundo o sistema dos conceitos permanentes e coerentes que se encontra em jogo num conjunto de enunciados. Contudo, Foucault mostra que muitos conceitos dados em uma mesma unidade de enunciados podem ser dessemelhantes entre si e até mesmo incompatíveis, tendo em vista os saberes que os entrecortam em certo momento da história. Conforme diz Foucault, “[...] talvez fosse descoberta uma unidade discursiva se a buscássemos não na coerência dos conceitos, mas em sua emergência simultânea ou sucessiva, em seu afastamento, na distância que os separa e, eventualmente, em sua incompatibilidade” (Ibidem, p. 40). Se assim o fizéssemos, “[...] Não buscaríamos mais, então, uma arquitetura de conceitos suficientemente gerais e abstratos para explicar todos os outros e introduzi-los no mesmo edifício dedutivo; tentaríamos analisar o jogo de seus aparecimentos e de sua dispersão” (2008, p. 40).

4ª hipótese: diz respeito às estratégias que, por meio da dispersão dos pontos de escolha, definem diferentes olhares e posicionamentos sobre um mesmo tema. Contudo, Foucault nos mostra, a partir daí, que há outras estratégias discursivas que trabalham de forma tangencial àquilo que está no eixo das continuidades. Assim, as escolhas temáticas que definem um objeto se mostram tanto dispersas quanto diversas e diversificadas, indicando diferentes parâmetros de existência de um objeto numa mesma época (o que pode nos remeter às múltiplas temporalidades): alguns deles são autorizados e validados, outros se localizam nas margens do dizível e são, por isso, clandestinos e ilegais; entretanto, não se pode negar que eles existam, rompam enquanto acontecimentos discursivos e eclodam na massa contínua dos agrupamentos discursivos dados como estáveis.

Formação Discursiva: As formações discursivas seriam, pois, essa regularidade que pode ser descrita no caso em que, entre os enunciados, vislumbre-se o funcionamento de um sistema de dispersão, sistema esse que compreende “[...] os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, [e] as escolhas temáticas” (2008, p. 43) e a partir do qual se é possível conceber “[...] uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações” (2008, p. 43).

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sobre "Remontemos de Foucault a Spinoza"

Encontro do dia 12 de maio de 2010

Organização do texto: Jefferson Voss

_RESUMO_

Texto-base: PÊCHEUX, Michel. Remontemos de Foucault a Spinoza. (Tradução de Maria do Rosário Gregolin) Edição original: PÊCHEUX, Michel. Remontons de Foucault à Spinoza. In: L’Inquietude du discours. Textes Choisis par D. Maldidier. Paris: Cendres, 1977.

Texto de 1977, dado no entremeio das publicações de Les Vérités de La Palice[1] (1975) e L’etrange mirroir de l’Analyse du Discours[2] (1981), Remontemos de Foucault a Spinoza sintetiza os ideais políticos que atravessaram os trabalhos de Michel Pêcheux desde sua incursão na filosofia da linguagem e da sua fundação da análise do discurso. Pêcheux expõe, nesse texto, suas crenças no que diz respeito ao fazer científico e sua relação com a prática política. A fim de firmar sua posição, Pêcheux toma para análise o Tratado Teológico Político de Spinoza e a Arqueologia do Saber de Michel Foucault. O texto apresenta certo tom de crítica a Foucault, uma vez que, segundo Pêcheux, este se coloca numa frente historicista que não se posiciona de forma militante na luta de classes e que rejeita a categoria de contradição. Ao mesmo tempo, o texto começa a tecer uma retificação que já havia deixado marcas em Les Vérités de La Palice: Pêcheux passa a considerar de modo central a categoria de heterogeneidade discursiva e a des-instrumentalizar a análise do discurso de seu aparato científico/tecnológico provindo da linguística.

Pêcheux inicia sua fala argumentando sobre o estatuto dos cientistas da linguagem na prática política, enfatizando, em especial, o caso dos analistas do discurso. Segundo ele, a análise do discurso político deve estar estreitamente presa a uma posição na luta de classes: “Não podemos pretender falar de discursos políticos sem tomar simultaneamente posição na luta de classes, já que essa tomada de posição determina, na verdade, a maneira de conceber as formas materiais concretas sob as quais as ‘idéias’ entram em luta na história” (PÊCHEUX, 2010, p. 01)[3].

Passada essa fase introdutória do texto, em que, diga-se de passagem, Pêcheux elenca o objetivo principal de sua intervenção – discutir sobre a importância do “tomar partido” para a prática do cientista, o autor pontua então brevemente aquilo que, segundo ele, seriam as várias correntes da linguística e seus posicionamentos na luta de classes. A primeira delas é batizada de lógico-formalista, ou seja, aquela que se debruça sobre as gramáticas e que possui uma prática a-histórica, neutralizando a participação da história na existência da língua e apagando, dessa forma, a luta de classes. Quanto à segunda corrente, se trata da de mudança social na história, segundo a qual as línguas são organismos vivos e históricos que nascem, se desenvolvem e, eventualmente, morrem; quando à posição na luta de classes, Pêcheux a qualifica, dessa vez, como historicista, na medida em que contempla a essência social do homem e de sua evolução na história, mas também não trata do teor político que envolve a utilização da língua – o que faz com que essa corrente também não tome partido na luta de classes. A terceira corrente tratada por Pêcheux é a dos riscos da fala. Ao que parece, essa corrente é a que estuda a língua segundo seu caráter dialógico, em que haveria um duelo (afrontamento) entre sujeitos posicionados[4].

Pêcheux tenta mostrar que as três práticas das três correntes fazem com que o teórico se sobreponha ao político. No caso da primeira e terceira corrente, há uma posição burguesa, e, no caso da segunda, uma posição reformista. Temendo essa dominação do caráter político da análise de discurso pelo teor universitário, Pêcheux propõe um “novo percurso em torno do marxismo” em que se volte às origens e se explicite os casos em que o fazer político esteja, ou não, aliado ao tom científico do trabalho acadêmico. Os nomes escolhidos para ilustrar ambos os casos são os de Baruch Spinoza e Michel Foucault.

Primeiramente, Pêcheux compara os dois filósofos em quatro pontos, a fim de mostrar que ambos se relacionam com o estudo do discurso. O primeiro ponto concerne à relação que estabelecem, Foucault e Spinoza, com a linguística. Pechêux mostra que ambos caracterizam o sentido como algo histórico e a significação como propriedade da língua. O segundo ponto se refere à relação entre enunciados, uma vez que tanto Foucault quanto Spinoza contemplam esse tema. O terceiro ponto é sobre a determinação do discurso pelas relações de lugar. Sobre esse ponto, Foucault trabalha as modalidades enunciativas. E um quarto ponto se refere ao regime de materialidade do imaginário. Para Spinoza, a posição ocupada pelo indivíduo flagra mudanças na forma como ele concebe o fenômeno social e o discursiviza e, por outro lado, para Foucault, é o campo de utilização do enunciado e de sua relação com outras proposições que mudam a concepção humana sobre a proposição. Pêcheux logo adverte que mesmo havendo certas semelhanças entre os dois pensamentos, há muito mais uma grande diferença: “pode-se dizer que com os meios teóricos de seu tempo, Spinoza avança lá onde Foucault permanece, hoje em dia, um pouco bloqueado” (PÊCHEUX, 2010, p. 07). O posicionamento de Pêcheux não fica por aí, ele logo se explica: “o trabalho de Spinoza constitui uma espécie de antecedente de uma teoria materialista das ideologias, sob uma forma rudimentar que contém, entretanto, o essencial, a saber, a tese segundo a qual quanto menos se conhecem as causas, mais se é submetido a elas” (PÊCHEUX, 2010, p. 08).

O primeiro ponto que denota uma certa “quedinha” de Pêcheux por Spinoza é seu rascunho primeiro de uma teoria materialista. Mais adiante, Pêcheux também pontua o fato de Spinoza preliminarmente trabalhar com a categoria de contradição. Spinoza mostrou que o “axioma de identidade” (“Se um predicado é verdadeiro para um objeto, ele é verdadeiro para tudo o que é idêntico a esse objeto, independentemente da expressão utilizada para referir a esse objeto”, Spinoza apud Pêcheux) não funciona para a categoria de ideologia. Isso sustenta a tese principal de Pêcheux quando da tecelagem do conceito de formação discursiva: o sentido das palavras mudam segundo a posição ocupada pelos indivíduos no jogo da luta de classes (na relação dessa posição com uma ideologia e na oposição a outras ideologias).

Foucault (“No meio do caminho tinha uma pedra”...) é quem fala muito e faz pouco: não trabalha com a categoria de contradição e faz um “marxismo paralelo”, intitulado, por Pêcheux, “reformismo teórico”. Dá-se a entender que o modo como Foucault concebe a formação discursiva por meio da regularidade dispersa admite, segundo Pêcheux, homogeneidade do discurso de uma dada época. Pêcheux entende, então, que deve-se conceber, ao invés dessa homogeneidade, a heterogeneidade de posições que entrecortam uma ideologia quando esta é atacada internamente pelas posições dominantes – “uma dominação que se manifesta na própria organização interna da ideologia dominada”.

Pêcheux ainda critica a simples tomada do conceito de formação discursiva para se criar tipologia de discursos organizados segundo posições homogêneas (e note-se que ele acusa Foucault de sustentar essa posição (!!!)). Para Pêcheux, “É necessário, ao contrário, definir a relação interna que ela estabelece com seu exterior discursivo específico, portanto, determinar as invasões, os atravessamentos constitutivos pelas quais uma pluralidade contraditória, desigual e interiormente subordinada de formações discursivas se organiza em função dos interesses que colocam em causa a luta ideológica de classes, em um momento dado de seu desenvolvimento em uma dada formação social” (PÊCHEUX, 2010, p. 011-2).

Pêcheux avança. Isso é sabido, principalmente comparando-se esse texto aos anteriores (antes de 1975). Cada vez mais se permite conceber a heterogeneidade como constitutiva dos discursos. Maldidier flagra, então, aquela aproximação de Pêcheux com Authier (dizem as más línguas que se aproximaram até demais!). Contudo, nesse texto, Pêcheux peca na leitura da obra de Foucault, parece não entender os objetivos de Foucault e a abrangência de suas análises: era um projeto bem maior! Resta-nos entender que Pêcheux retifica cada vez mais suas posições, até começar a perceber em Foucault um aliado. Isso pode ser checado em Só Há Causa Daquilo que Falha ou o Inverno Político Francês: início de uma retificação (anexo à edição inglesa de Les Vérités de La Palice) e em Discourse: Structure or Event?, conferência de 1983 pronunciada nos Estados Unidos no ano de seu suicídio.

Se a prática científica deve ser tão militante a ponto de ser também prática política, como pode o homem se despir de sua entrada na história para falar dos objetos que ele próprio constitui e que também o constituem? Fica o problema. Será que Pêcheux o resolveu?



[1] PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 4 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2009. Tradução de Eni Puccinelli Orlandi.

[2] PÊCHEUX, Michel. O Estranho Espelho da Análise do Discurso (Prefácio). In: COURTINE, Jean-Jaques. Análise do Discurso Político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Carlos: EDUFSCar, 2009. pp. 21-6.

[3] Nota para discussão: Essa tomada de posição não acaba implicando uma leitura ideologizada do texto/discurso em análise?

[4] Nota para discussão: Nesse ponto, parece que Pêcheux retoma e rediscute as altercações de Bakhtin sobre o objetivismo abstrato e o subjetivismo idealista, criticando também o próprio dialogismo proposto por Bakhtin.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Microfísica do Poder: Cap. XVII - A Governamentalidade

GEF/UEM – Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM
Orientação: Prof. Dr. Pedro Navarro
Organização: Adriana Beloti
Discussões realizadas em: 07/04/2010.

Cap. XVII: A GOVERNAMENTALIDADE[1]

A partir de uma análise histórica de alguns dispositivos de segurança, Foucault procedeu a uma análise da população, o que o levou à questão do governo, tema discutido no capítulo XVII da obra Microfísica do Poder. Por suas reflexões é possível percebermos que o poder esteve, a todo o momento, permeando suas observações e, neste texto, desde a teoria de Maquiavel, que tem como norte O Príncipe, até às propostas anti-Maquiavel, ou seja, a arte de governar.
Dos tratados de conselhos aos príncipes da Idade Média e da Antiguidade greco-romana aos tratados da arte de governar, do século XVI ao XVIII, surgem os problemas do governo: “problema do governo de si mesmo”, “problema do governo das almas e das condutas”, “problema do governo das crianças”, “problema do governo dos Estados pelos príncipes”. De acordo com Foucault (2007, p. 278), trata-se da “problemática geral do governo em geral”. Desses problemas de governo têm-se os três tipos de governo: “cada um se referindo a uma forma específica de ciência ou de reflexão. O governo de si mesmo, que diz respeito à moral; a arte de governar adequadamente uma família, que diz respeito à economia; a ciência de bem governar o Estado, que diz respeito à política” (2007, p. 280).
Até o início do século XVIII, a arte de governar foi, de certa forma, travada por algumas situações. Passada essa fase de entraves e bloqueios, conseguiu, enfim, um processo de desbloqueio e de avanços, dados alguns fatores sociais e históricos, em específico, por sua relação com a emergência do problema da população. Num primeiro momento, a população “permitirá eliminar definitivamente o modelo da família e centralizar a noção de economia em outra coisa”. A família deixa de ser modelo de governo e passa a ser instrumento fundamental para o governo da população. “Portanto, aquilo que permite à população desbloquear a arte de governar é o fato dela eliminar o modelo da família” (FOUCAULT, 2007, p. 289).
A população aparece como objetivo e instrumento do governo não sendo mais vista como força do soberano. São os interesses individuais e coletivos que se tornam, nessa perspectiva, o alvo e o instrumento fundamental do governo. A população se torna objeto do governo em relação a suas observações, seu saber, sendo considerada por este para que consiga “governar efetivamente de modo racional e planejado”. Nas palavras de Foucault (2007, p. 290), “em suma, a passagem de uma arte de governo para uma ciência política, de um regime dominado pela estrutura da soberania para um regime dominado pelas técnicas de governo, ocorre no século XVIII em torno da população e, por conseguinte, em torno do nascimento da economia política”.
Questões relacionadas à soberania e à disciplina não foram extintas. Ao contrário. Conforme pondera Foucault (2007, p. 291), “a idéia de um novo governo da população torna ainda mais agudo o problema do fundamento da soberania e ainda mais aguda a necessidade de desenvolver a disciplina. Devemos compreender as coisas não em termos de substituição de uma sociedade de soberania por uma sociedade disciplinar e desta por uma sociedade de governo. Trata-se de um triângulo: soberania-disciplina-gestão governamental, que tem na população seu alvo principal e nos dispositivos de segurança seus mecanismos essenciais”. Em síntese, o filósofo afirma que procurou mostrar a profunda relação histórica entre os movimentos de governo, população e economia política, movimentos que passaram da soberania, como força única e exclusiva do soberano, ao aparecimento da população, como objetivo e instrumento do governo e, por fim, à economia política como ciência e técnica de intervenção.
Vale ressaltar aqui o que Foucault, ao final de todas essas discussões, afirma entender por governamentalidade (2007, p. 291-292):
1 – o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer esta forma bastante específica e complexa de poder, que tem por alvo a população, por forma principal de saber a economia política e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de segurança.
2 – a tendência que em todo o Ocidente conduziu incessantemente, durante muito tempo, à preeminência deste tipo de poder, que se pode chamar de governo, sobre todos os outros – soberania, disciplina, etc. – e levou ao desenvolvimento de uma série de aparelhos específicos de governo e de um conjunto de saberes.
3 – o resultado do processo através do qual o Estado de justiça da Idade Média, que se tornou nos séculos XV e XVI Estado administrativo, foi pouco a pouco governamentalizado.
Por fim, esse filósofo (2007) destaca que “o importante para nossa modernidade, para nossa atualidade, não é tanto a estatização da sociedade mas o que chamaria de governamentalização do Estado” (p. 292). Para ele, o Estado, da forma que existe hoje, deve-se à sua governamentalidade, tanto interior quanto exterior, às suas táticas gerais de governamentalidade. “Este Estado de governo que tem como alvo a população e utiliza a instrumentalização do saber econômico, corresponderia a uma sociedade controlada pelos dispositivos de segurança” (p. 293).

[1] FOUCAUTL, M. Microfísica do poder. Tradução Roberto Machado. 24. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007. p. 277 – 293.

Microfísica do Poder: Cap. IX - Poder - Corpo

GEF/UEM – Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM
Orientação: Prof. Dr. Pedro Navarro
Organização: Adriana Beloti
Discussões realizadas em: 24/03/2010.

Cap. IX: PODER – CORPO[1]

Neste capítulo, Foucault discorre sobre o poder, reafirmando sua concepção de poder: positivo, produtivo, que produz saberes, que é material e que se exerce; uma prática social que é constituída historicamente. Nesse sentido, toma o corpo como objeto de análise em relação ao poder.
Questionado sobre o sistema político descrito em Vigiar e Punir, Foucault (2007) pondera que o corpo, em determinados momentos e sociedades, tem um poder real e essencial: “Numa sociedade como a do século XVII, o corpo do rei não era uma metáfora, mas uma realidade política: sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia” (p. 145), ou seja, o corpo, físico e presente, era um dos mecanismos pelos quais o poder se exercia.
Por outro lado, em relação à república “una e indivisível”, o corpo já não funciona como o corpo do rei na monarquia, pois “não há um corpo da República. Em compensação, é o corpo da sociedade que se torna, no decorrer do século XIX, o novo princípio” (FOUCAULT, 2007, p. 145). De acordo com o filósofo, não há vontades tidas como universais que constituem os corpos da sociedade, “não é o consenso que faz surgir um corpo social, mas a materialidade do poder se exercendo sobre o próprio corpo dos indivíduos” (p. 146).
Foucault, nas discussões sobre o poder e o corpo, se opõe às tendências marxistas e para-marxistas. À primeira, por não delimitar os efeitos do poder ao nível da ideologia, além disso, considera que seria mais materialista estudar sobre o corpo, sobre os efeitos do poder sobre o corpo. Esse posicionamento está articulado a sua própria concepção de poder. À segunda perspectiva, se opõe devido à grande importância e valor dado à noção de repressão. Pois, para ele, “se o poder só tivesse a função de reprimir, se agisse apenas por meio da censura, da exclusão, do impedimento, do recalcamento, à maneira de um grande super-ego, se apenas se exercesse de um modo negativo, ele seria muito frágil. Se ele é forte, é porque produz efeitos positivos a nível do desejo – como se começa a conhecer – e também a nível do saber. O poder, longe de impedir o saber, o produz” (FOUCAULT, 2007, p. 148).
Em suas reflexões, Michel Foucault observa, ainda, a psicanálise e sua relação poder-corpo. Para ele, a “psicanálise desempenhou um papel liberador e em certos países ainda desempenhava um papel político positivo de denúncia da cumplicidade entre os psiquiatras e o poder” (FOUCAULT, 2007, p. 150). Por suas atuações, essa disciplina se caracteriza, ainda, pelo controle, pela normalização e pela disciplinarização, estabelecendo uma constante relação entre o corpo e o poder, sendo que esse se exerce, também, por aquele e o domina.
Por fim, tomando como norte o papel do intelectual, que para Foucault não deve ultrapassar o fornecimento de instrumentos para análise e nunca ser aquele que diz o que deve ser feito, esse filósofo ainda pondera sobre o complexo conjunto que coordena o poder do corpo, analisando, por exemplo, como as atividades filantrópicas e sociais e, depois, a medicina se marcam como mecanismo de controle dos corpos da sociedade. Segundo Foucault (2007, p. 152), “o interessante não é ver que projeto está na base de tudo isto, mas em termos de estratégia, como as peças foram dispostas”. Portanto, um dos princípios é analisar como o poder é exercido, como os micro-poderes se exercem nos/pelos corpos sociais.

[1] FOUCAUTL, M. Microfísica do poder. Tradução Roberto Machado. 24. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007. p. 145 – 152.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A Ordem do Discurso

No encontro realizado no dia 28/04, discutimos "A Ordem do Discurso", obra na qual é reproduzida a aula inaugural de Foucault no Collège de France. Neste livro, o filósofo nos alerta sobre os poderes que controlam as práticas discursivas na sociedade.
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Orientação: Prof. Dr. Pedro Navarro
Organização: Andréa Zíngara, Bruno Franceschini e Shirlei Doretto
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A Ordem do Discurso
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Ao ocupar a cadeira no Collège de France, onde Foucault substituiria Jean Hyppolite e lecionaria História dos Sistemas de Pensamentos, o filósofo fala de sua hesitação e temor ao ter que proferir seu discurso, possivelmente por estar ocupando o lugar daquele que foi seu “mestre”.
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“No discurso que devo fazer hoje e nos que precisarei fazer aqui, durante anos talvez, gostaria de poder deslizar-me sub-repticiamente. Mais do que tomar a palavra, eu gostaria de ser envolvido por ela, e levado bem além de qualquer começo possível. Gostaria de perceber que no momento de falar uma voz sem nome tivesse me precedido há muito tempo” (Foucault, p. 8).

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Assim nasce “A ordem do Discurso”, momento em que Michel Foucault nos coloca a par dos perigos que o discurso acarreta, nos direcionando para o seu método de análise da relação entre as práticas discursivas e as diversas formas de poder que as permeiam. Em nosso resumo apontaremos, em forma de tópicos, os principais aspectos do empreendimento do filósofo a propósito do discurso.

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• Em todas as sociedades a produção de discursos é regulada, selecionada, organizada e redistribuída conjurando poderes e perigos.

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• Procedimentos Exteriores de controle e delimitação do discurso:

- Interdição

- Separação/Rejeição

- Vontade de Verdade

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• Procedimentos Internos de controle e delimitação do discurso:

- Comentário

- Princípio de Autoria

- Disciplinas

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• Imposição de regras aos sujeitos do discurso:

- Ritual

- Doutrinas

- Apropriação social dos Discursos

- Temas Filosóficos relativos aos processos de delimitação dos discursos

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• Três direções que o trabalho de elaboração teórica deverá seguir:

- Princípio de descontinuidade

- Princípio de especificidade

- Princípio da exterioridade

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Referência
FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso. Tradução Adalberto Oliveira Souza.