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terça-feira, 12 de março de 2013

SUJEITO E PODER


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SUJEITO E PODER

Michel Foucault

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Organização: Rafael Andrade Moreira
E-mail: r.andrademoreira@gmail.com 



No presente texto, Michel Foucault explicará o porquê de se estudar o poder e a questão do sujeito. Logo de início, o filósofo propõe que aquilo de que irá falar não representaria nem uma teoria e nem uma metodologia. Segundo ele, o objetivo de seu trabalho seria tentar observar a história dos diferentes modos pelos quais os seres humanos se tornaram sujeitos. E este trabalho, em suas próprias palavras, “lidou com três modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos” (FOUCAULT, 1995, p. 231).

            O primeiro seria o modo de investigação que ele se propôs a empreender. Segundo Foucault (1995), esse modo de investigação tentaria atingir o “estatuto de ciência”. Fornecendo alguns exemplos, o filósofo explica o processo de objetivação do sujeito do discurso na gramática geral, na filologia e na linguística. Houve também a objetivação do sujeito produtivo, “do sujeito que trabalha na análise das riquezas e na economia. Um terceiro exemplo, a objetivação do simples fato de estar vivo na história natural ou na biologia” (FOUCAULT, 1995, p. 231). O segundo modo seria aquilo que Foucault chama de “práticas divisoras”. Nesse modo, o sujeito, no interior e em relação aos outros, será divido. Como por exemplo: O criminoso e o “bom”, o doente e o sadio, “o louco e o são” (FOUCAULT, 1995, p. 231). O terceiro seria o modo pelo qual um indivíduo se torna sujeito. Para estudar esse modo, Foucault vai escolher o domínio da sexualidade como campo de estudos. Tendo esse “corpus” para suas explanações, vai tentar entender, por exemplo, “como os homens aprenderam a se reconhecer como sujeitos de ‘sexualidade’” (FOUCAULT, 1995, p. 232).

Explica o filósofo francês, que não seria o poder o tema geral de suas pesquisas, e sim o sujeito. Colocando o sujeito humano em relações de produção e de significação, Foucault afirma que este é colocado e confrontado em relações de poder extremamente complexas. Em suas palavras,



Ora, pareceu-me que a história e a teoria econômica forneciam um bom instrumento para as relações de produção e que a linguística e a semiótica ofereciam instrumentos para estudar as relações de significação; porém, para as relações de poder, não temos instrumentos de trabalho. (FOUCAULT, 1995, p. 232).



            Devido a essa falta de “instrumentos de trabalho”, os recursos disponíveis para tal estudo seria pensar os modos de poder com base nos modelos legais e nos modelos institucionais. Disso, decorrem dois questionamentos por parte de Foucault (1995): O que legitima o poder? O que é o Estado?

Foucault (1995) vai colocar a necessidade de entender as dimensões de uma definição do poder para pode estudar a objetivação do sujeito.



Será preciso uma teoria do poder? Uma vez que uma teoria assume uma objetivação prévia, ela não pode ser afirmada como uma base para um trabalho analítico. Porém, este trabalho analítico não pode proceder sem uma conceituação dos problemas tratados, conceituação esta que implica um pensamento crítico – uma verificação constante. (FOUCAULT, 1995, p. 232).



Seguindo essa verificação, Foucault denomina como necessidades conceituais a primeira coisa a se fazer. Pensando em uma consciência histórica da situação presente, o autor de Arqueologia do Saber vai compreender que a conceituação não deveria estar edificada numa teoria do objeto, pois não seria o único critério de uma conceituação. Já a segunda seria compreender a realidade com a qual se vai lidar. Para exemplificar essas necessidades, Foucault coloca que,



Certa vez, um escritor expressou, num jornal francês bem conhecido, sua surpresa: “Por que a noção do poder é discutida por tantas pessoas hoje em dia?” Trata-se de um tema tão importante? É ela tão independente que pode ser discutida sem se levar em consideração outros problemas? (FOUCAULT, 1995, p. 232).



            Apesar da surpresa desse escritor, Foucault não acredita que essa questão foi levantada, pela primeira vez, somente no século XX, por não se tratar apenas de uma questão teórica, e sim de uma parte de nossa experiência. Citando duas “formas patológicas” do poder – o fascismo e o estalinismo –, ele entende que essas duas formas patológicas perturbadoras além de suas singularidades históricas, não seriam originais. Elas simplesmente reproduzem e expandem mecanismos já presentes na sociedade.

Foucault explica que se necessita de uma nova economia das relações de poder. Segundo o filósofo, desde Kant, “o papel da filosofia é prevenir a razão de ultrapassar os limites daquilo que é dado na experiência” (FOUCAULT, 1995, 233). Porém, atesta também que o papel da filosofia seria, também, o de vigiar os excessivos poderes da racionalidade política. Todos teriam consciência de tais fatos banais, mas para o teórico francês o fato de serem banais não o impedem de existir.

Pensando na relação evidente entre a racionalização e os excessos do poder político, Foucault expõe que não se deveria esperar pela burocracia ou pelos campos de concentração para reconhecer tais relações. Disso, o filósofo nos coloca alguns problemas: o que fazer com um fato tão evidente? Deve-se julgar a razão?

            Para Foucault (1995), nada seria mais incoerente. Primeiro, por que o campo em que se deve trabalhar nada tem a ver com culpa ou inocência. Segundo, porque não haveria sentido se referir à razão em sentindo contrária à não-razão. E por fim, tal julgamento, argumenta o filósofo, nos condenaria a representar o papel arbitrário e enfadonho do racionalista ou do irracionalista. Deitando um olhar crítico para o racionalismo específico da cultura moderna, que se originaria no Aufklãrung, Foucault explicita que seu objetivo não era iniciar uma discussão nesses trabalhos, e sim o contrário, trataria de propor uma outra forma de investigação das relações entre racionalização e o poder.



Seria mais sábio não considerarmos como um todo a racionalização da sociedade ou da cultura, mas analisa-la como um processo em vários campos, cada um dos quais com uma referência a uma experiência fundamental: loucura, doença, morte, crime, sexualidade etc. Considero a palavra racionalização perigosa. O que devemos fazer é analisar racionalidades específicas mais do que evocar constantemente o progresso da racionalização em geral. (FOUCAULT, 1995, p. 233).



            Partindo dessa problemática, Foucault (1995) vai sugerir uma outra forma de prosseguir em direção a uma nova economia das relações de poder. Esta seria mais empírica e mais próxima da situação do presente, implicando assim um olhar para as relações mais estreitas entre a teoria e a prática.



Ela consiste em usar as formas de resistência contra as diferentes formas de poder como um ponto de partida. Para usar uma outra metáfora, ela consiste em usar esta resistência como um catalisador químico de modo a esclarecer as relações de poder, localizar sua posição, descobrir seu ponto de aplicação e os métodos utilizados. Mais do que analisar o poder do ponto de vista de sua racionalidade interna, ela consiste em analisar as relações de poder através do antagonismo das estratégias. (FOUCAULT, 1995, p. 234).



            Foucault lembra que para que se possa descobrir, em nossa sociedade, o que significa a sanidade, talvez precisássemos investigar o que ocorre no campo da insanidade. “E para compreender o que são as relações de poder, talvez devêssemos investigar as formas de resistência e as tentativas de dissociar estas relações” (FOUCAULT, 1995, p. 234). Partindo de oposições de poder tais como dos homens sobre as mulheres, Foucault (1995) coloca que não bastaria afirmar que estas seriam lutas anti-autoritárias, deveríamos tentar definir mais precisamente o que elas têm em comum.

            Seguindo essa linha de raciocínio, o autor vai explicar que essas lutas são transversais, não limitadas a um país; que o objetivo dessas lutas são os efeitos de poder; que são lutas imediatas; Que são lutas que questionam o estatuto do indivíduo; Oposição aos efeitos de poder relacionados ao saber, à competência e à qualificação; e por fim, todas são lutas contemporâneas que giram em torno de uma questão emblemática: quem somos nós?

            Colocando que esta forma de poder aplica-se à vida cotidiana, que categoriza o indivíduo e marcando-o em sua própria individualidade, Foucault compreender que essa característica é uma forma de poder que faz dos indivíduos sujeitos. Para Foucault (1995), existem dois significados para a palavra sujeito: Primeiro, seria a ideia de sujeito a alguém pelo controle e dependência. O segundo seria a concepção de sujeito preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento.

            Foucault coloca que dessa forma de poder resultam três tipos de lutas. Aquelas em que há resistência contra as formas de dominação; lutas contra as formas de exploração e separação dos indivíduos e os produtos derivados de suas produções; e aquelas que ligam os indivíduos a si mesmos e os submetem aos outros. O filósofo ainda explica que essas lutas podem acontecer de formas isoladas umas das outras ou, ao mesmo tempo, misturadas. Porém, quando acontecem misturadas, na maior parte do tempo, uma prevalece. Para dar um exemplo, Foucault (1995) traz que nas sociedades feudais, as lutas contras as formas de dominação étnica ou social prevaleciam, mesmo que a exploração econômica tinha sido importante com uma das causas de revolta. Em suas próprias palavras,



Eu suponho que não é a primeira vez que a nossa sociedade se confrontou com este tipo de luta. Todos aqueles movimentos dos séculos XV e XVI, e que tiveram a reforma como expressão e resultado máximos, poderiam ser analisados como uma grande crise da experiência ocidental da subjetividade, e como uma revolta contra o tipo de poder religioso e moral que deu forma, na Idade Média, a esta subjetividade. A necessidade de ter uma participação direta na vida espiritual, no trabalho de salvação, na verdade que repousa nas Escrituras – tudo isto foi uma luta por uma nova subjetividade. (FOUCAULT, 1995, 236).



            Desde o século XVI, sobre a razão pela qual este tipo de luta prevaleceu em nossa sociedade, Foucault explica que isso se deve ao fato de uma nova forma política de poder que se desenvolveu de modo contínuo. Essa nova forma de poder seria o Estado. Porém, a ideia de Estado estaria ligada a um “tipo de poder político que ignora os indivíduos, ocupando-se apenas com os interesses da totalidade [...] de uma classe ou um grupo dentre os cidadãos” (FOUCAULT, 1995, p. 236). O pesquisador francês vai enfatizar que o poder do Estado seria uma forma de poder tanto individualizante quanto totalizadora. Isso se deveria ao fato de o Estado moderno integrar, em sua dinâmica, uma tecnologia de poder antiga e originada nas instituições cristãs. O poder pastoral.

            Para Foucault (1995), o cristianismo seria a única religião a se organizar como uma Igreja. Essa Igreja vai postular o princípio de que certos indivíduos podem servir a outros como pastores. Porém, o poder pastoral vai designar uma forma específica de poder. Esse poder seria uma forma de poder cujo objetivo era a salvação individual do outro; seria um tipo de poder que além de comandar, estaria preparado para se sacrificar pela vida e salvação do rebanho. Um tipo de poder que cuidaria da comunidade e, ao mesmo tempo, de cada indivíduo em particular. Um poder que não se exerceria sem o conhecimento da mente dos indivíduos. Ou seja, implicaria em um saber da consciência e de sua direção.



Esta forma de poder é orientada para a salvação (por oposição ao poder político). É oblativa (por oposição ao princípio da soberania); é individualizante (por oposição ao poder jurídico); é co-extensiva à vida e constitui seu prolongamento; está ligada à produção da verdade – a verdade do próprio indivíduo. (FOUCAULT, 1995, p. 237).



            O poder pastoral, segundo Foucault (1995), tem dois aspectos importantes. Por um lado, a institucionalização eclesiástica, que foi perdendo sua força desde o século XVIII. Por outro lado, há também sua função, que acabou se ampliando e se multiplicando fora da instituição eclesiástica. “De certa forma, podemos considerar o Estado como a matriz moderna da individualização ou uma nova forma do poder pastoral” (FOUCAULT, 1995, p. 237). Continuando a falar sobre o poder pastoral, Foucault explica algumas características importantes. Há uma mudança no objetivo deste poder. Já não se trataria mais de uma questão de dirigir o povo para a salvação no outro mundo, e sim para assegurá-la neste mundo. Houve também um reforço da administração do poder pastoral.

Houve também, segundo o filósofo, a multiplicação dos objetivos e agentes do poder pastoral que enfocava o processo e desenvolvimento do saber sobre o homem em torno de dois pólos: “um, globalizador e quantitativo, concernente à população; o outro, analítico, concernente ao indivíduo” (FOUCAULT, 1995, p. 238). Isto implicou que o poder pastoral, que era associado a uma instituição religiosa definida, encontrou apoio numa multiplicidade de instituições.

            Novamente, dessa problemática, Foucault vai nos colocar diante uma questão fundamental de suas reflexões: “Como se exerce o poder?”. Se interrogar sobre o como do poder seria limitar a descrever seus efeitos sem relacioná-los nem a causa e nem a uma natureza.



Se provisoriamente atribuo um certo privilégio à questão do “como”, não é que eu deseje eliminar a questão do quê e do porquê. É para colocá-las de outro modo; ou melhor: para saber se é legítimo imaginar um “poder” que reúne um quê, um porquê, e um como. Grosso modo, eu diria que começar a análise pelo “como” é introduzir a suspeita de que o “poder” não existe; é perguntar-se, em todo caso, a que conteúdos significativos podemos visar quando usamos este termo majestoso, globalizante e substantificador; é desconfiar que deixamos escapar um conjunto de realidades bastante complexo, quando engatinhamos indefinidamente diante da dupla interrogação: “O que é o poder? De onde vem o poder?”. A pequena questão, direta e empírica: “Como isto acontece?”, não tem por função denunciar como fraude uma “metafísica” ou uma “ontologia” do poder; mas tentar uma investigação crítica sobre a temática do poder. (FOUCAULT, 1995, p. 240).



            Pensando nessa investigação crítica sobre a temática do poder, Foucault vai tentar responder os questionamentos seguintes;



1)      “´Como’ não no sentido de ‘Como se manifesta?’, mas ‘Como se exerce?’, ‘Como acontece quando os indivíduos exercem, como se diz seu poder sobre os outros?’” (FOUCAULT, 1995,  p. 240).



Foucault (1995) vai explicar que deste poder é necessário distinguir aquele que exercemos sobre as coisas e que dá a capacidade de modificá-las, utilizá-las, consumi-las ou destruí-las. Este poder colocaria em jogo relações entre indivíduos e/ou grupos. “Pois não devemos nos enganar: se falamos do poder das leis, das instituições ou das ideologias, se falamos de estruturas ou de mecanismos de poder, é apenas na medida em que supomos que ‘alguns’ exercem um poder sobre os outros” (FOUCAULT, 1995, p. 240). Será necessário, também, distinguir relações de poder das relações de comunicação que transmitem informações por meio de uma língua, de um sistema de signo ou de qualquer outro meio simbólico. Segundo Foucault (1995), a produção e a circulação de elementos significantes podem ter como fim e/ou consequência a instituição dos efeitos de poder. Há, nessa problemática, a inseparabilidade de três domínios: relações de poder, relações de comunicação e capacidades objetivas.



Trata-se de três tipos de relação que, de fato, estão sempre imbricados uns nos outros, apoiando-se reciprocamente e servindo-se mutuamente de instrumento. A aplicação de capacidade objetiva, nas suas formas mais elementares, implica relações de comunicação (seja de informação prévia, ou de trabalho dividido); liga-se também a relações de poder (seja de tarefas obrigatórias, de gestos impostos por uma tradição ou um aprendizado, de subdivisões ou de repartição mais ou menos obrigatória do trabalho). As relações de comunicação implicam atividades finalizadas (mesmo que seja apenas a “correta” operação dos elementos significantes) e induzem efeitos de poder pelo fato de modificarem o campo de informação dos parceiros. (FOUCAULT, 1995, p. 240).



            Para Foucault, essa problemática entre os três tipos de relação não será uniforme e nem constante. Não haveria na sociedade um equilíbrio geral entre as atividades finalizadas, os sistemas de comunicação e as relações de poder. Refletir sobre o tema do poder por meio de uma análise do “como” teria que se operar sobre diversos deslocamentos críticos com relação à suposição de um “poder” fundamental. Ao invés de se tomar como objeto de análise um poder, Foucault propõe que se tome as relações de poder.



2)      “Em que consiste a especificidade das relações de poder?” (FOUCAULT, 1995, p. 242).



Neste ponto Foucault vai especificar que o exercício do poder não se daria na relação entre parceiros individuais ou coletivos, mas em modo de ação. Uma ação de alguns sobre os outros. O poder só existiria em atos. Ou seja, não haveria aquele que o possuísse. Ele simplesmente se exerce por uns sobre os outros. Isto também significaria que,



O poder não é da ordem do consentimento; ele não é, em si mesmo, renúncia a uma liberdade, transferência de direito, poder de todos e de cada um delegado a alguns (o que não impede que o consentimento possa ser uma condição para que a relação de poder exista e se mantenha); a relação de poder pode ser o efeito de um consentimento anterior ou permanente; ela não é, em sua própria natureza, a manifestação de um consenso. (FOUCAULT, 1995, p. 243).



            A relação de poder, em seu funcionamento, não seria exclusividade do uso da violência mais do que a do consentimento. Não seria um tipo de violência que se esconderia, ou um consentimento que se reconduziria.



Ele é um conjunto de ações sobre ações possíveis; ele opera sobre o campo de possibilidade onde se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos; ele incita, induz, desvia, facilita ou torna mais difícil, amplia ou limita, torna mais ou menos provável; no limite, ele coage ou impede absolutamente, mas é sempre uma maneira de agir sobre um ou vários sujeitos ativos, e o quanto eles agem ou são suscetíveis de agir. Uma ação sobre ações. (FOUCAULT, 1995, p. 243).



            Para Foucault (1995), o termo “conduta” é o que talvez melhor permita atingir aquilo que há de específico nas relações de poder. Pois, ao mesmo tempo que seria um ato de conduzir os outros, seria um tipo de comportamento dentro de um campo possibilidades. Assim, essa relação de poder e a insubmissão seriam inseparáveis. “O problema central do poder não é o da ‘servidão voluntária’ (como poderíamos desejar ser escravos?): no centro da relação de poder, ‘provocando-a’ incessantemente, encontra-se a recalcitrância do querer e a intransigência da liberdade” (FOUCAULT, 1995, p. 244). Daí que Foucault falar de um agonismo ao invés de um antagonismo essencial.



3)      “Como analisar a relação de poder?” (FOUCAULT, 1995, p. 245).



De acordo com Foucault (1995), o legítimo seria analisá-la em algumas instituições bem especificas por se constituírem em campos de observações privilegiados. De uma primeira abordagem poderia se ver aparecer a forma e a lógica de seus mecanismos elementares. Porém,



A análise das relações de poder nos espaços institucionais fechados apresenta alguns inconvenientes. Primeiramente, o fato de uma parte importante dos mecanismos operados por uma instituição ser destinada a assegurar sua própria conservação apresenta o risco de decifrar, sobretudo nas relações de poder “intra-institucionais”, funções essencialmente reprodutoras. Em segundo lugar, ao analisarmos as relações de poder a partir das instituições, nos expomos de nelas buscar a explicação e a origem daquelas, quer dizer, em suma, de explicar o poder pelo poder. Enfim, na medida em que as instituições agem essencialmente através da colocação de dois elementos em jogo: regras (explicitas ou silenciosas) e um aparelho, corremos o risco de privilegiar exageradamente um ou outro na relação de poder e, assim, de ver nestas apenas modulações da lei e da coerção. (FOUCAULT, 1995, p. 245).



            Foucault (1995) garante que não se trata de negar a importância das instituições na organização das relações de poder, mas de se observar que é necessário sugerir, antes de tudo, analisar essas instituições a partir das relações de poder e não o inverso. Em suas palavras,



Retomemos a definição segundo a qual o exercício do poder seria uma maneira para alguns de estruturar o campo de ação possível dos outros. Deste modo, o que seria próprio a uma relação de poder é que ela seria um modo de ação sobre ações. O que quer dizer que as relações de poder se enraízam profundamente no nexo social; e que elas não reconstituem acima da “sociedade” uma estrutura suplementar com cuja obliteração radical pudéssemos talvez sonhar. Viver em sociedade é, de qualquer maneira, viver de modo que seja possível a alguns agirem sobre a ação dos outros. Uma sociedade “sem relações de poder” só pode ser uma abstração. O que, diga-se de passagem, torna ainda mais necessária, do ponto de vista político, a análise daquilo que elas são numa dada sociedade, de sua formação histórica, daquilo que as torna sólidas ou frágeis, das condições que são necessárias para transformar umas, abolir as outras. (FOUCAULT, 1995, p. 245-246).



            Foucault (1995) atesta que a análise das relações de poder, e do agonismo entre relações de poder e intransitividade da liberdade, seria uma tarefa política incessante. E que é esta tarefa inerente a toda existência social. Porém, essa analítica das relações de poder vai exigir, segundo o pensador francês, observação de alguns pontos:



1)      Sistema das diferenciações: Por exemplo, diferenças jurídicas ou tradicionais de estatuto e de privilégio que permitem agir sobre a ação dos outros.

2)      Tipo de objetivos: Objetivos, como manutenção de privilégios e acúmulos de lucros, perseguidos por todos que agem sobre a ação dos outros.

3)      Modalidades instrumentais: Poder exercido por sistemas de vigilância, por ameaça de armas, dos efeitos da palavra etc.

4)      Formas de institucionalização: Dispositivos tradicionais e fechados (como escola, hospital, cartel militar); estruturas jurídicas; dispositivos de sistemas complexos como no caso do Estado.

5)      Graus de racionalização: Funcionamento das relações de poder como ação sobre um campo de possibilidade devido a função de eficácia dos instrumentos e da certeza dos resultados.



Foucault explica que a análise das relações de poder não poderia somente se prestar ao estudo de uma série de instituições. “As relações de poder se enraízam no conjunto da rede social” (FOUCAULT, 1995, p. 247). A partir dessa possibilidade de existir uma ação sobre a ação dos outros, Foucault (1995) vai considerar que existem múltiplas formas de disparidade individual, de objetivos, de determinada aplicabilidade do poder sobre nós mesmos e sobre os outros. “Institucionalização mais ou menos setorial ou global, organização mais ou menos refletida, que definem formas diferentes de poder” (FOUCAULT, 1995, p. 247). Foucault, neste ponto, vai falar das formas e lugares de governo dos homens uns pelos outros. Essas formas de governo, segundo o autor, se entrecruzam, se limitam e se anulam em certos casos, e em outros também se reforçam. Especificamente falando do vocábulo “governo”, Foucault (1995, p. 247) vai dizer que “poderíamos dizer que as relações de poder foram progressivamente governamentalizadas, ou seja, elaboradas, racionalizadas e centralizadas na forma ou sob a caução das instituições do Estado”. Por fim temos o último ponto especificado pelo filósofo:



4)      “Relações de poder e relações estratégicas” (FOUCAULT, 1995, p. 247).



Deitando um olhar crítico sobre a palavra estratégia, Foucault (1995) vai explicar que ela é empregada em três sentidos. O primeiro trataria da questão da racionalidade empregada para se atingir um objetivo. O segundo estaria atrelado à ideia de explicar a maneira que um indivíduo, num jogo dado, age em função do que pensa dever ser a ação dos outros, e daquilo que ele acredita que os outros vão pensar ser a dele. E, por fim, para o terceiro sentindo Foucault (1995) vai explicar o conjunto dos procedimentos utilizados num confronto para privar o adversário dos seus meios de combate e reduzi-lo a renunciar à luta. Assim, “trata-se, então, dos meios destinados a obter a vitória” (FOUCAULT, 1995, p. 247).

Dessa forma, o filósofo francês observa que a estratégia se constitui por escolhas, numa guerra ou jogo, das soluções vencedoras, onde o principal objetivo é o de agir sobre um adversário de modo que a luta lhe seja impossível. Porém, Foucault faz uma ressalva ao explicar que se trata de uma situação bem particular.

Ao refletir sobre o primeiro sentindo, o autor chamou de estratégia de poder os conjuntos dos meios operados para fazer funcionar ou para manter um dispositivo de poder.



Podemos também falar de estratégia própria às relações de poder na medida em que estas constituem modos de ação sobre a ação possível, eventual, suposta dos outros. Podemos então decifrar em termos de “estratégias” os mecanismos utilizados nas relações de poder. Porém, o ponto mais importante é evidentemente a relação entre relações de poder e estratégias de confronto. Pois, se é verdade que no centro das relações de poder e como condição permanente de sua existência, há uma “insubmissão” e liberdades essencialmente renitentes, não há relação de poder sem resistência, sem escapatória ou fuga, sem inversão eventual; toda relação de poder implica, então, pelo menos de modo virtual, uma estratégia de luta, sem que para tanto venham a se superpor, a perder sua especificidade e finalmente a se confundir. (FOUCAULT, 1995, p. 248).



            Dessa relação de poder e estratégia, Foucault explica que existe atração recíproca, encadeamento indefinido e inversão perpétua. A relação de poder, a cada instante e em certos pontos, pode se torna um conforto entre adversários. “A cada instante também as relações de adversidade, numa sociedade, abrem espaço para emprego de mecanismos de poder” (FOUCAULT, 1995, p. 248-249). Assim, termina Foucault, o que tornaria a dominação de um grupo e as revoltas às quais ela se opõe em um fenômeno central da sociedade é o “fato de manifestarem, numa forma global e maciça, na escala do corpo social inteiro, a integração das relações de poder com as relações estratégicas e seus efeitos de encadeamento recíproco” (FOUCAULT, 1995, p. 249).



Referências



FOUCAULT, Michel. Sujeito e Poder. In: DREYFUS, H. & RABINOW, P. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: (para além do estruturalismo e da hermenêutica). Vera Porto Carrero. Rio de Janeiro: Universitária, 1995. pp. 231-239.

           

           


sábado, 9 de março de 2013

Ex-membro do GEF defenderá tese na UFSCAR


 
Daiany Bonácio defenderá em 04/04/2013, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), campus São Carlos - SP, às 10h00min, a tese de doutorado intitulada “Pequenas frases na mídia eletrônica brasileira: uma leitura discursiva”, vinculada à linha de pesquisa “Linguagem e Discurso”, sob a orientação do Prof. Dr. Roberto Leiser Baronas.

Daiany já foi integrante do Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM (GEF). Em 2009 ela defendeu a dissertação de mestrado “Discurso, mídia e identidade masculina quem é esse "novo" homem”, vinculada à linha de pesquisa “Estudos do Texto e do Discurso”, tendo como orientador o Prof. Dr. Pedro Navarro, líder do GEF. A banca examinadora será composta pelos seguintes pesquisadores: Profa. Dra. Maria Inês Pagliarini Cox, Profa. Dra. Anna Flora Brunelli, Profa. Dra. Mônica Baltazar Diniz Signori, Profa. Dra. Soeli Maria Schreiber da Silva, Prof. Dr. Pedro Luís Navarro Barbosa, Profa. Dra. Ana Sílvia Couto de Abreu e Prof. Dr. Dirceu Cléber Conde.