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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

PARTICIPAÇÃO DO GEF  EM EVENTOS
2013

HOSTER OLDER SANCHES

Trabalho apresentado: O dispositivo da sexualidade: A necessidade da confissão no discurso da AIDS em 1988”.
Natureza: apresentação e resumo.

Evento:  CONALI (Congresso Nacional de Linguagens em Interação).

Local:  Evento realizado na Universidade Estadual de Maringá – UEM – Maringá – PR.

Data: 05, 06 e 07 de junho de 2013


Natureza: apresentação e resumo.
Evento: DCIMA ( I Colóquio Internacional Mídia e Discurso na Amazônia/II Encontro de Análise do Discurso da Amazônia).
Local: Belém – PA, câmpus da Universidade Federal do Pará – UFPA.
Data: 07,08 e 09 de agosto de 2013.

Trabalho apresentado: “DISPOSITIVO DE SEXUALIDADE E O DISCURSO SOBRE A AIDS NO BRASIL DOS ANOS 1980”
Natureza: apresentação da pesquisa da dissertação.
Evento: 8º SPLE (Simpósio de Pós-graduação em Letras).
Local: Evento realizado no câmpus da Universidade Estadual de Maringá – UEM – Maringá – PR.
Data: 13 e 14 de novembro de 2013.

Trabalho apresentado:
Natureza: artigo em anais, apresentação e resumo.
Evento: SILEL (XIV Simpósio Nacional de Letras e Linguística/IV Simpósio Internacional de Letras e Linguística).
Local: Evento realizado pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU – Uberlândia – MG.
Data: 20, 21 e 22 de novembro de 2013.



RAFAEL ANDRADE



Trabalho apresentado: "Fez muito bem. Homem que é homem não aceita traição. Mostrou que é macho": O funcionamento das relações de poder na novela Gabriela.

Natureza: Artigo + apresentação + resumo

Evento: IV CONALI - Congresso Nacional de Linguagens em Interação: Múltiplos Olhares

Local: Universidade Estadual de Maringá

Data: 05, 06 e 07 de Junho de 2013.



Trabalho apresentado: "EU tenho poder, posso mudar porque tenho poder": Por uma análise do discurso do poder em canção do rapper Marcelo D2.

Natureza: Apresentação + resumo

Evento: IV CONALI - Congresso Nacional de Linguagens em Interação: Múltiplos Olhares

Local: Universidade Estadual de Maringá

Data: 05, 06 e 07 de Junho de 2013.

  

Trabalho apresentado: "É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer": Estudo da parrhesia no discurso de Carlos Marighella.

Natureza: Apresentação + resumo

Evento: 8º SPLE - Seminário de Pesquisa em Letras.

Local: Universidade Estadual de Maringá

Data: 13 e 14 de Novembro de 2013.



Palestra: A concepção de educação em Antônio Gramsci.

Natureza: Ouvinte

Local: Universidade Estadual de Maringá

Data: 18 de Maio de 2013.


 

Artigo: O ethos como estratégia de leitura: uma possível contribuição da análise de discurso para a educação linguística.

Natureza: Publicação (O artigo já está com parecer favorável)

Revista: Diálogos & Saberes - FAFIMAN. (ISSN 1806-8545 impressa e ISSN 2176-3836 on-line)


segunda-feira, 2 de setembro de 2013


INFORMAÇÕES SOBRE O SILEL - UBERLÂNDIA - 2013

Informamos que as inscrições para apresentação de comunicações nos GT foram prorrogadas até 08 de setembro de 2013, devido a problemas no sistema de inscrição. As inscrições para apresentação de painéis serão de Informamos que as inscrições para apresentação de comunicações nos GT foram prorrogadas até 08 de setembro de 2013, devido a problemas no sistema de inscrição. As inscrições para apresentação de painéis serão de 14/07/2013 a 12/09/2013 e as inscrições para ouvintes de 12/09/2013 a 15/11/2013./07/2013 a 12/09/2013 e as inscrições para ouvintes de 12/09/2013 a 15/11/2013.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE LÍNGUA E LITERATURA NA FRONTEIRA SUL (Michel Foucault). O evento acontecerá na Universidade Federal da Fronteira Sul (Chapecó). Até o dia 15/09, estarão abertas as inscrições para apresentação de trabalho em simpósio.
O evento contará com a presença de Geraldi e de Eni Orlandi.
Maiores informações no site: http://fronteirasul2013.wordpress.com/

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A aluna de mestrado Daniela Polla defenderá sua dissertação no dia 26/08/2013, nas dependências do câmpus da UEM, Maringá. A sala e o horário serão confirmados neste site.
Em outubro acontecerá no Rio de Janeiro o VIII COLÓQUIO INTERNACIONAL MICHEL FOUCAULT.
O evento ocorrerá entre os dias 22 e 25 de outubro de 2013. Maiores informações no endereço eletrônico: http://www.internacionalfoucault2013.com/

segunda-feira, 1 de abril de 2013

VERDADE E PODER




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VERDADE E PODER
Michel Foucault
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 Orientação: Prof. Dr. Pedro Navarro
Organização: Rafael Andrade Moreira
E-mail:  r.andrademoreira@gmail.com



            Nesta entrevista, publicada no livro Microfísica do poder, Michel Foucault irá tratar da relação entre verdade, poder e discurso. A problemática que guia o filósofo em seus estudos, nos anos de 1950-55, se baseia no problema do estatuto político da ciência e as funções ideológicas que podiam veicular. As palavras que resumiam essa perspectiva eram saber e poder.
            Tomando um saber como a psiquiatria, em contraposição a física teórica ou a química orgânica, Foucault alerta que não poderíamos, em relação a esse campo do conhecimento, apreender de forma segura o entrelaçamento dos efeitos de poder e saber. Em o Nascimento da clínica a mesma questão foi posta. Em suas palavras, a medicina “certamente possui uma estrutura muito mais sólida do que a psiquiatria, mas também está enraizada profundamente nas estruturas sociais” (FOUCAULT, 2012, p. 36).
            Se atentando para esse fato, Foucault vai explicar que em certos saberes, como a biologia, a economia política, a psiquiatria e a medicina, os ritmos das transformações não obedeciam aos esquemas suaves e contínuos de desenvolvimento que normalmente se admitia. Diante disso, o seu problema não era a consideração da perpetuação da descontinuidade, em que se poderia ficar nela, mas como seria possível, em certos momentos e em certas ordens de saber, mudanças bruscas, precipitações de evolução que não corresponderiam às imagens tranquilas das continuidades. Para o filósofo o que está em questão não será o que rege os enunciados e a forma como eles se regem entre si para constituir um conjunto de proposições aceitáveis e suscetíveis de serem verificadas por procedimentos científicos. A questão não será a de saber qual seria o poder que agiria do exterior sobre a ciência, e sim quais os efeitos de poder que circulariam entre os enunciados científicos.
            Dessa problemática dos efeitos de poder, que derivam de uma rede discursiva, Foucault vai considerar o conceito de acontecimento. Para ele, ao se tratar do acontecimento, temos um problema em distingui-los: diferenciar as redes e os níveis a que pertencem e reconstituir os fios que os ligam e que fazem com que se engendrem uns aos outros. Para o autor de arqueologia do saber, as relações de sentidos, nesse caso, passariam a ser consideradas não como relações de sentidos, e sim como belicosas. Em suas próprias palavras,
Creio que aquilo que deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não linguística. Relação de poder, não relação de sentido. A história não tem “sentido”, o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas. (FOUCAULT, 2012, p. 41).

            Ou seja, para Foucault nem a dialética e nem a semiótica poderiam dar conta do que é inteligível sem levar em consideração esse “olhar oblíquo” para o caráter violento do funcionamento das relações de poder nas constituições dos sentidos.
            Ainda nesse quadro “metodológico”, Foucault observa como esses problemas de constituição poderiam ser resolvidos. Para isso, vai abordá-los no interior de uma trama histórica, em vez de remetê-los a um sujeito constituinte. Sua perspectiva se baseia em uma analítica que possa dar conta da constituição do sujeito na trama histórica. A isso ele vai chamar de genealogia. Ou seja, “uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes, dos discursos, dos domínios de objeto etc., sem ter que se referir a um sujeito, seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos, seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história” (FOUCAULT, 2012, p. 43).
            Ao abordar, por exemplo, a questão da repressão, sem levar em consideração essa perspectiva, ela poderia ser inadequada para dar conta do que existe justamente de produtor no poder. “Quando se definem os efeitos de poder pela repressão, tem-se uma concepção puramente jurídica desse mesmo poder; identifica-se o poder a uma lei que diz não. O fundamental seria a força da proibição” (FOUCAULT, 2012, p. 45). Para Foucault, o poder não pode ser analisado somente como uma instituição repressora, responsável somente por punir. O poder não somente pesa como uma força punitiva, ele permite, também, o “produzir”. Ele induz ao prazer, a forma saber e produz discurso.

Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir. Em Vigiar e punir o que eu quis mostrar foi como, a partir dos séculos XVII e XVIII, houve verdadeiramente um desbloqueio tecnológico da produtividade do poder. As monarquias da época clássica não só desenvolveram grandes aparelhos de Estado – exército, polícia, administração local –, mas instauraram o que se poderia chamar uma nova “economia” do poder, isto é, procedimentos que permitissem fazer circular os efeitos de poder de forma ao mesmo tempo contínua, ininterrupta, adaptada e “individualizada” em todo o corpo social. (FOUCAULT, 2012, p. 45).

            Essas novas técnicas seriam muito mais eficazes e muito menos caras e dispendiosas das técnicas usadas e que se baseavam sobre uma mistura de tolerância e o castigo.
            Assim, para Foucault, a verdade não poderia existir fora de uma relação de poder. A verdade “é deste mundo; ela é produzida nele graças as múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder” (FOUCAULT, 2012, p. 52). Em cada sociedade há regimes de verdades e políticas gerais de verdade. Isto é,

Os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2012, p. 52).

            Na sociedade, a “economia política” da verdade, segundo Foucault (2012), vai ter cinco características historicamente importantes. Segue o quadro.

“Economia política” da verdade (p. 52).
1ª Característica
A “verdade” é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem.
2ª Característica
Está submetida a uma constante incitação econômica e política. (necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder político).
3ª Característica
É objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circulação nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas)relativamente grande, nç(circulaça produçer cinco caracter falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as t
4ª Característica
É produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação).
5ª Característica
É objeto de debate político e de confronto social (as lutas “ideológicas”).
  
            Foucault vai pensar a verdade como um conjunto de regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder. Para o filósofo francês, os problemas políticos precisavam ser pensados não em termos de “ciência/ideologia”, mas em termos de “verdade/poder”. Para encerrar a discussão nessa entrevista, e deixar um pouco mais claro o seu intuito, Foucault (2012) propõe algumas proposições sobre o que considera a verdade em sua relação com o poder:

Seis proposições foucaultianas (p. 54)
Primeira proposição
Por “verdade”, entender um conjunto de procedimentos regulados para a produção, a lei, a repartição, a circulação e o funcionamento dos enunciados.
Segunda proposição
A “verdade” está circularmente ligada a sistema de poder, que a produzem e apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem. “Regime” de verdade.
Terceira proposição
Esse regime não é simplesmente ideológico ou superestrutural; foi uma condição de formação e desenvolvimento do capitalismo. É ele que, com algumas modificações, funciona na maior parte dos países socialistas.
Quarta proposição
O problema político essencial para o intelectual não é criticar os conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por uma ideologia justa; mas saber se é possível constituir uma nova política da verdade. O problema não é mudar a “consciência” das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade.
Quinta proposição
Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder – o que seria quimérico à medida que a própria verdade é poder –, mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.
Sexta proposição
A questão política não é erro, a ilusão, a consciência alienada ou a ideologia; é a própria verdade.


Referências

FOUCAULT, Michel. Verdade e poder. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. 25ª ed. São Paulo: Graal, 2012.







terça-feira, 12 de março de 2013

SUJEITO E PODER


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SUJEITO E PODER

Michel Foucault

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Organização: Rafael Andrade Moreira
E-mail: r.andrademoreira@gmail.com 



No presente texto, Michel Foucault explicará o porquê de se estudar o poder e a questão do sujeito. Logo de início, o filósofo propõe que aquilo de que irá falar não representaria nem uma teoria e nem uma metodologia. Segundo ele, o objetivo de seu trabalho seria tentar observar a história dos diferentes modos pelos quais os seres humanos se tornaram sujeitos. E este trabalho, em suas próprias palavras, “lidou com três modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos” (FOUCAULT, 1995, p. 231).

            O primeiro seria o modo de investigação que ele se propôs a empreender. Segundo Foucault (1995), esse modo de investigação tentaria atingir o “estatuto de ciência”. Fornecendo alguns exemplos, o filósofo explica o processo de objetivação do sujeito do discurso na gramática geral, na filologia e na linguística. Houve também a objetivação do sujeito produtivo, “do sujeito que trabalha na análise das riquezas e na economia. Um terceiro exemplo, a objetivação do simples fato de estar vivo na história natural ou na biologia” (FOUCAULT, 1995, p. 231). O segundo modo seria aquilo que Foucault chama de “práticas divisoras”. Nesse modo, o sujeito, no interior e em relação aos outros, será divido. Como por exemplo: O criminoso e o “bom”, o doente e o sadio, “o louco e o são” (FOUCAULT, 1995, p. 231). O terceiro seria o modo pelo qual um indivíduo se torna sujeito. Para estudar esse modo, Foucault vai escolher o domínio da sexualidade como campo de estudos. Tendo esse “corpus” para suas explanações, vai tentar entender, por exemplo, “como os homens aprenderam a se reconhecer como sujeitos de ‘sexualidade’” (FOUCAULT, 1995, p. 232).

Explica o filósofo francês, que não seria o poder o tema geral de suas pesquisas, e sim o sujeito. Colocando o sujeito humano em relações de produção e de significação, Foucault afirma que este é colocado e confrontado em relações de poder extremamente complexas. Em suas palavras,



Ora, pareceu-me que a história e a teoria econômica forneciam um bom instrumento para as relações de produção e que a linguística e a semiótica ofereciam instrumentos para estudar as relações de significação; porém, para as relações de poder, não temos instrumentos de trabalho. (FOUCAULT, 1995, p. 232).



            Devido a essa falta de “instrumentos de trabalho”, os recursos disponíveis para tal estudo seria pensar os modos de poder com base nos modelos legais e nos modelos institucionais. Disso, decorrem dois questionamentos por parte de Foucault (1995): O que legitima o poder? O que é o Estado?

Foucault (1995) vai colocar a necessidade de entender as dimensões de uma definição do poder para pode estudar a objetivação do sujeito.



Será preciso uma teoria do poder? Uma vez que uma teoria assume uma objetivação prévia, ela não pode ser afirmada como uma base para um trabalho analítico. Porém, este trabalho analítico não pode proceder sem uma conceituação dos problemas tratados, conceituação esta que implica um pensamento crítico – uma verificação constante. (FOUCAULT, 1995, p. 232).



Seguindo essa verificação, Foucault denomina como necessidades conceituais a primeira coisa a se fazer. Pensando em uma consciência histórica da situação presente, o autor de Arqueologia do Saber vai compreender que a conceituação não deveria estar edificada numa teoria do objeto, pois não seria o único critério de uma conceituação. Já a segunda seria compreender a realidade com a qual se vai lidar. Para exemplificar essas necessidades, Foucault coloca que,



Certa vez, um escritor expressou, num jornal francês bem conhecido, sua surpresa: “Por que a noção do poder é discutida por tantas pessoas hoje em dia?” Trata-se de um tema tão importante? É ela tão independente que pode ser discutida sem se levar em consideração outros problemas? (FOUCAULT, 1995, p. 232).



            Apesar da surpresa desse escritor, Foucault não acredita que essa questão foi levantada, pela primeira vez, somente no século XX, por não se tratar apenas de uma questão teórica, e sim de uma parte de nossa experiência. Citando duas “formas patológicas” do poder – o fascismo e o estalinismo –, ele entende que essas duas formas patológicas perturbadoras além de suas singularidades históricas, não seriam originais. Elas simplesmente reproduzem e expandem mecanismos já presentes na sociedade.

Foucault explica que se necessita de uma nova economia das relações de poder. Segundo o filósofo, desde Kant, “o papel da filosofia é prevenir a razão de ultrapassar os limites daquilo que é dado na experiência” (FOUCAULT, 1995, 233). Porém, atesta também que o papel da filosofia seria, também, o de vigiar os excessivos poderes da racionalidade política. Todos teriam consciência de tais fatos banais, mas para o teórico francês o fato de serem banais não o impedem de existir.

Pensando na relação evidente entre a racionalização e os excessos do poder político, Foucault expõe que não se deveria esperar pela burocracia ou pelos campos de concentração para reconhecer tais relações. Disso, o filósofo nos coloca alguns problemas: o que fazer com um fato tão evidente? Deve-se julgar a razão?

            Para Foucault (1995), nada seria mais incoerente. Primeiro, por que o campo em que se deve trabalhar nada tem a ver com culpa ou inocência. Segundo, porque não haveria sentido se referir à razão em sentindo contrária à não-razão. E por fim, tal julgamento, argumenta o filósofo, nos condenaria a representar o papel arbitrário e enfadonho do racionalista ou do irracionalista. Deitando um olhar crítico para o racionalismo específico da cultura moderna, que se originaria no Aufklãrung, Foucault explicita que seu objetivo não era iniciar uma discussão nesses trabalhos, e sim o contrário, trataria de propor uma outra forma de investigação das relações entre racionalização e o poder.



Seria mais sábio não considerarmos como um todo a racionalização da sociedade ou da cultura, mas analisa-la como um processo em vários campos, cada um dos quais com uma referência a uma experiência fundamental: loucura, doença, morte, crime, sexualidade etc. Considero a palavra racionalização perigosa. O que devemos fazer é analisar racionalidades específicas mais do que evocar constantemente o progresso da racionalização em geral. (FOUCAULT, 1995, p. 233).



            Partindo dessa problemática, Foucault (1995) vai sugerir uma outra forma de prosseguir em direção a uma nova economia das relações de poder. Esta seria mais empírica e mais próxima da situação do presente, implicando assim um olhar para as relações mais estreitas entre a teoria e a prática.



Ela consiste em usar as formas de resistência contra as diferentes formas de poder como um ponto de partida. Para usar uma outra metáfora, ela consiste em usar esta resistência como um catalisador químico de modo a esclarecer as relações de poder, localizar sua posição, descobrir seu ponto de aplicação e os métodos utilizados. Mais do que analisar o poder do ponto de vista de sua racionalidade interna, ela consiste em analisar as relações de poder através do antagonismo das estratégias. (FOUCAULT, 1995, p. 234).



            Foucault lembra que para que se possa descobrir, em nossa sociedade, o que significa a sanidade, talvez precisássemos investigar o que ocorre no campo da insanidade. “E para compreender o que são as relações de poder, talvez devêssemos investigar as formas de resistência e as tentativas de dissociar estas relações” (FOUCAULT, 1995, p. 234). Partindo de oposições de poder tais como dos homens sobre as mulheres, Foucault (1995) coloca que não bastaria afirmar que estas seriam lutas anti-autoritárias, deveríamos tentar definir mais precisamente o que elas têm em comum.

            Seguindo essa linha de raciocínio, o autor vai explicar que essas lutas são transversais, não limitadas a um país; que o objetivo dessas lutas são os efeitos de poder; que são lutas imediatas; Que são lutas que questionam o estatuto do indivíduo; Oposição aos efeitos de poder relacionados ao saber, à competência e à qualificação; e por fim, todas são lutas contemporâneas que giram em torno de uma questão emblemática: quem somos nós?

            Colocando que esta forma de poder aplica-se à vida cotidiana, que categoriza o indivíduo e marcando-o em sua própria individualidade, Foucault compreender que essa característica é uma forma de poder que faz dos indivíduos sujeitos. Para Foucault (1995), existem dois significados para a palavra sujeito: Primeiro, seria a ideia de sujeito a alguém pelo controle e dependência. O segundo seria a concepção de sujeito preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento.

            Foucault coloca que dessa forma de poder resultam três tipos de lutas. Aquelas em que há resistência contra as formas de dominação; lutas contra as formas de exploração e separação dos indivíduos e os produtos derivados de suas produções; e aquelas que ligam os indivíduos a si mesmos e os submetem aos outros. O filósofo ainda explica que essas lutas podem acontecer de formas isoladas umas das outras ou, ao mesmo tempo, misturadas. Porém, quando acontecem misturadas, na maior parte do tempo, uma prevalece. Para dar um exemplo, Foucault (1995) traz que nas sociedades feudais, as lutas contras as formas de dominação étnica ou social prevaleciam, mesmo que a exploração econômica tinha sido importante com uma das causas de revolta. Em suas próprias palavras,



Eu suponho que não é a primeira vez que a nossa sociedade se confrontou com este tipo de luta. Todos aqueles movimentos dos séculos XV e XVI, e que tiveram a reforma como expressão e resultado máximos, poderiam ser analisados como uma grande crise da experiência ocidental da subjetividade, e como uma revolta contra o tipo de poder religioso e moral que deu forma, na Idade Média, a esta subjetividade. A necessidade de ter uma participação direta na vida espiritual, no trabalho de salvação, na verdade que repousa nas Escrituras – tudo isto foi uma luta por uma nova subjetividade. (FOUCAULT, 1995, 236).



            Desde o século XVI, sobre a razão pela qual este tipo de luta prevaleceu em nossa sociedade, Foucault explica que isso se deve ao fato de uma nova forma política de poder que se desenvolveu de modo contínuo. Essa nova forma de poder seria o Estado. Porém, a ideia de Estado estaria ligada a um “tipo de poder político que ignora os indivíduos, ocupando-se apenas com os interesses da totalidade [...] de uma classe ou um grupo dentre os cidadãos” (FOUCAULT, 1995, p. 236). O pesquisador francês vai enfatizar que o poder do Estado seria uma forma de poder tanto individualizante quanto totalizadora. Isso se deveria ao fato de o Estado moderno integrar, em sua dinâmica, uma tecnologia de poder antiga e originada nas instituições cristãs. O poder pastoral.

            Para Foucault (1995), o cristianismo seria a única religião a se organizar como uma Igreja. Essa Igreja vai postular o princípio de que certos indivíduos podem servir a outros como pastores. Porém, o poder pastoral vai designar uma forma específica de poder. Esse poder seria uma forma de poder cujo objetivo era a salvação individual do outro; seria um tipo de poder que além de comandar, estaria preparado para se sacrificar pela vida e salvação do rebanho. Um tipo de poder que cuidaria da comunidade e, ao mesmo tempo, de cada indivíduo em particular. Um poder que não se exerceria sem o conhecimento da mente dos indivíduos. Ou seja, implicaria em um saber da consciência e de sua direção.



Esta forma de poder é orientada para a salvação (por oposição ao poder político). É oblativa (por oposição ao princípio da soberania); é individualizante (por oposição ao poder jurídico); é co-extensiva à vida e constitui seu prolongamento; está ligada à produção da verdade – a verdade do próprio indivíduo. (FOUCAULT, 1995, p. 237).



            O poder pastoral, segundo Foucault (1995), tem dois aspectos importantes. Por um lado, a institucionalização eclesiástica, que foi perdendo sua força desde o século XVIII. Por outro lado, há também sua função, que acabou se ampliando e se multiplicando fora da instituição eclesiástica. “De certa forma, podemos considerar o Estado como a matriz moderna da individualização ou uma nova forma do poder pastoral” (FOUCAULT, 1995, p. 237). Continuando a falar sobre o poder pastoral, Foucault explica algumas características importantes. Há uma mudança no objetivo deste poder. Já não se trataria mais de uma questão de dirigir o povo para a salvação no outro mundo, e sim para assegurá-la neste mundo. Houve também um reforço da administração do poder pastoral.

Houve também, segundo o filósofo, a multiplicação dos objetivos e agentes do poder pastoral que enfocava o processo e desenvolvimento do saber sobre o homem em torno de dois pólos: “um, globalizador e quantitativo, concernente à população; o outro, analítico, concernente ao indivíduo” (FOUCAULT, 1995, p. 238). Isto implicou que o poder pastoral, que era associado a uma instituição religiosa definida, encontrou apoio numa multiplicidade de instituições.

            Novamente, dessa problemática, Foucault vai nos colocar diante uma questão fundamental de suas reflexões: “Como se exerce o poder?”. Se interrogar sobre o como do poder seria limitar a descrever seus efeitos sem relacioná-los nem a causa e nem a uma natureza.



Se provisoriamente atribuo um certo privilégio à questão do “como”, não é que eu deseje eliminar a questão do quê e do porquê. É para colocá-las de outro modo; ou melhor: para saber se é legítimo imaginar um “poder” que reúne um quê, um porquê, e um como. Grosso modo, eu diria que começar a análise pelo “como” é introduzir a suspeita de que o “poder” não existe; é perguntar-se, em todo caso, a que conteúdos significativos podemos visar quando usamos este termo majestoso, globalizante e substantificador; é desconfiar que deixamos escapar um conjunto de realidades bastante complexo, quando engatinhamos indefinidamente diante da dupla interrogação: “O que é o poder? De onde vem o poder?”. A pequena questão, direta e empírica: “Como isto acontece?”, não tem por função denunciar como fraude uma “metafísica” ou uma “ontologia” do poder; mas tentar uma investigação crítica sobre a temática do poder. (FOUCAULT, 1995, p. 240).



            Pensando nessa investigação crítica sobre a temática do poder, Foucault vai tentar responder os questionamentos seguintes;



1)      “´Como’ não no sentido de ‘Como se manifesta?’, mas ‘Como se exerce?’, ‘Como acontece quando os indivíduos exercem, como se diz seu poder sobre os outros?’” (FOUCAULT, 1995,  p. 240).



Foucault (1995) vai explicar que deste poder é necessário distinguir aquele que exercemos sobre as coisas e que dá a capacidade de modificá-las, utilizá-las, consumi-las ou destruí-las. Este poder colocaria em jogo relações entre indivíduos e/ou grupos. “Pois não devemos nos enganar: se falamos do poder das leis, das instituições ou das ideologias, se falamos de estruturas ou de mecanismos de poder, é apenas na medida em que supomos que ‘alguns’ exercem um poder sobre os outros” (FOUCAULT, 1995, p. 240). Será necessário, também, distinguir relações de poder das relações de comunicação que transmitem informações por meio de uma língua, de um sistema de signo ou de qualquer outro meio simbólico. Segundo Foucault (1995), a produção e a circulação de elementos significantes podem ter como fim e/ou consequência a instituição dos efeitos de poder. Há, nessa problemática, a inseparabilidade de três domínios: relações de poder, relações de comunicação e capacidades objetivas.



Trata-se de três tipos de relação que, de fato, estão sempre imbricados uns nos outros, apoiando-se reciprocamente e servindo-se mutuamente de instrumento. A aplicação de capacidade objetiva, nas suas formas mais elementares, implica relações de comunicação (seja de informação prévia, ou de trabalho dividido); liga-se também a relações de poder (seja de tarefas obrigatórias, de gestos impostos por uma tradição ou um aprendizado, de subdivisões ou de repartição mais ou menos obrigatória do trabalho). As relações de comunicação implicam atividades finalizadas (mesmo que seja apenas a “correta” operação dos elementos significantes) e induzem efeitos de poder pelo fato de modificarem o campo de informação dos parceiros. (FOUCAULT, 1995, p. 240).



            Para Foucault, essa problemática entre os três tipos de relação não será uniforme e nem constante. Não haveria na sociedade um equilíbrio geral entre as atividades finalizadas, os sistemas de comunicação e as relações de poder. Refletir sobre o tema do poder por meio de uma análise do “como” teria que se operar sobre diversos deslocamentos críticos com relação à suposição de um “poder” fundamental. Ao invés de se tomar como objeto de análise um poder, Foucault propõe que se tome as relações de poder.



2)      “Em que consiste a especificidade das relações de poder?” (FOUCAULT, 1995, p. 242).



Neste ponto Foucault vai especificar que o exercício do poder não se daria na relação entre parceiros individuais ou coletivos, mas em modo de ação. Uma ação de alguns sobre os outros. O poder só existiria em atos. Ou seja, não haveria aquele que o possuísse. Ele simplesmente se exerce por uns sobre os outros. Isto também significaria que,



O poder não é da ordem do consentimento; ele não é, em si mesmo, renúncia a uma liberdade, transferência de direito, poder de todos e de cada um delegado a alguns (o que não impede que o consentimento possa ser uma condição para que a relação de poder exista e se mantenha); a relação de poder pode ser o efeito de um consentimento anterior ou permanente; ela não é, em sua própria natureza, a manifestação de um consenso. (FOUCAULT, 1995, p. 243).



            A relação de poder, em seu funcionamento, não seria exclusividade do uso da violência mais do que a do consentimento. Não seria um tipo de violência que se esconderia, ou um consentimento que se reconduziria.



Ele é um conjunto de ações sobre ações possíveis; ele opera sobre o campo de possibilidade onde se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos; ele incita, induz, desvia, facilita ou torna mais difícil, amplia ou limita, torna mais ou menos provável; no limite, ele coage ou impede absolutamente, mas é sempre uma maneira de agir sobre um ou vários sujeitos ativos, e o quanto eles agem ou são suscetíveis de agir. Uma ação sobre ações. (FOUCAULT, 1995, p. 243).



            Para Foucault (1995), o termo “conduta” é o que talvez melhor permita atingir aquilo que há de específico nas relações de poder. Pois, ao mesmo tempo que seria um ato de conduzir os outros, seria um tipo de comportamento dentro de um campo possibilidades. Assim, essa relação de poder e a insubmissão seriam inseparáveis. “O problema central do poder não é o da ‘servidão voluntária’ (como poderíamos desejar ser escravos?): no centro da relação de poder, ‘provocando-a’ incessantemente, encontra-se a recalcitrância do querer e a intransigência da liberdade” (FOUCAULT, 1995, p. 244). Daí que Foucault falar de um agonismo ao invés de um antagonismo essencial.



3)      “Como analisar a relação de poder?” (FOUCAULT, 1995, p. 245).



De acordo com Foucault (1995), o legítimo seria analisá-la em algumas instituições bem especificas por se constituírem em campos de observações privilegiados. De uma primeira abordagem poderia se ver aparecer a forma e a lógica de seus mecanismos elementares. Porém,



A análise das relações de poder nos espaços institucionais fechados apresenta alguns inconvenientes. Primeiramente, o fato de uma parte importante dos mecanismos operados por uma instituição ser destinada a assegurar sua própria conservação apresenta o risco de decifrar, sobretudo nas relações de poder “intra-institucionais”, funções essencialmente reprodutoras. Em segundo lugar, ao analisarmos as relações de poder a partir das instituições, nos expomos de nelas buscar a explicação e a origem daquelas, quer dizer, em suma, de explicar o poder pelo poder. Enfim, na medida em que as instituições agem essencialmente através da colocação de dois elementos em jogo: regras (explicitas ou silenciosas) e um aparelho, corremos o risco de privilegiar exageradamente um ou outro na relação de poder e, assim, de ver nestas apenas modulações da lei e da coerção. (FOUCAULT, 1995, p. 245).



            Foucault (1995) garante que não se trata de negar a importância das instituições na organização das relações de poder, mas de se observar que é necessário sugerir, antes de tudo, analisar essas instituições a partir das relações de poder e não o inverso. Em suas palavras,



Retomemos a definição segundo a qual o exercício do poder seria uma maneira para alguns de estruturar o campo de ação possível dos outros. Deste modo, o que seria próprio a uma relação de poder é que ela seria um modo de ação sobre ações. O que quer dizer que as relações de poder se enraízam profundamente no nexo social; e que elas não reconstituem acima da “sociedade” uma estrutura suplementar com cuja obliteração radical pudéssemos talvez sonhar. Viver em sociedade é, de qualquer maneira, viver de modo que seja possível a alguns agirem sobre a ação dos outros. Uma sociedade “sem relações de poder” só pode ser uma abstração. O que, diga-se de passagem, torna ainda mais necessária, do ponto de vista político, a análise daquilo que elas são numa dada sociedade, de sua formação histórica, daquilo que as torna sólidas ou frágeis, das condições que são necessárias para transformar umas, abolir as outras. (FOUCAULT, 1995, p. 245-246).



            Foucault (1995) atesta que a análise das relações de poder, e do agonismo entre relações de poder e intransitividade da liberdade, seria uma tarefa política incessante. E que é esta tarefa inerente a toda existência social. Porém, essa analítica das relações de poder vai exigir, segundo o pensador francês, observação de alguns pontos:



1)      Sistema das diferenciações: Por exemplo, diferenças jurídicas ou tradicionais de estatuto e de privilégio que permitem agir sobre a ação dos outros.

2)      Tipo de objetivos: Objetivos, como manutenção de privilégios e acúmulos de lucros, perseguidos por todos que agem sobre a ação dos outros.

3)      Modalidades instrumentais: Poder exercido por sistemas de vigilância, por ameaça de armas, dos efeitos da palavra etc.

4)      Formas de institucionalização: Dispositivos tradicionais e fechados (como escola, hospital, cartel militar); estruturas jurídicas; dispositivos de sistemas complexos como no caso do Estado.

5)      Graus de racionalização: Funcionamento das relações de poder como ação sobre um campo de possibilidade devido a função de eficácia dos instrumentos e da certeza dos resultados.



Foucault explica que a análise das relações de poder não poderia somente se prestar ao estudo de uma série de instituições. “As relações de poder se enraízam no conjunto da rede social” (FOUCAULT, 1995, p. 247). A partir dessa possibilidade de existir uma ação sobre a ação dos outros, Foucault (1995) vai considerar que existem múltiplas formas de disparidade individual, de objetivos, de determinada aplicabilidade do poder sobre nós mesmos e sobre os outros. “Institucionalização mais ou menos setorial ou global, organização mais ou menos refletida, que definem formas diferentes de poder” (FOUCAULT, 1995, p. 247). Foucault, neste ponto, vai falar das formas e lugares de governo dos homens uns pelos outros. Essas formas de governo, segundo o autor, se entrecruzam, se limitam e se anulam em certos casos, e em outros também se reforçam. Especificamente falando do vocábulo “governo”, Foucault (1995, p. 247) vai dizer que “poderíamos dizer que as relações de poder foram progressivamente governamentalizadas, ou seja, elaboradas, racionalizadas e centralizadas na forma ou sob a caução das instituições do Estado”. Por fim temos o último ponto especificado pelo filósofo:



4)      “Relações de poder e relações estratégicas” (FOUCAULT, 1995, p. 247).



Deitando um olhar crítico sobre a palavra estratégia, Foucault (1995) vai explicar que ela é empregada em três sentidos. O primeiro trataria da questão da racionalidade empregada para se atingir um objetivo. O segundo estaria atrelado à ideia de explicar a maneira que um indivíduo, num jogo dado, age em função do que pensa dever ser a ação dos outros, e daquilo que ele acredita que os outros vão pensar ser a dele. E, por fim, para o terceiro sentindo Foucault (1995) vai explicar o conjunto dos procedimentos utilizados num confronto para privar o adversário dos seus meios de combate e reduzi-lo a renunciar à luta. Assim, “trata-se, então, dos meios destinados a obter a vitória” (FOUCAULT, 1995, p. 247).

Dessa forma, o filósofo francês observa que a estratégia se constitui por escolhas, numa guerra ou jogo, das soluções vencedoras, onde o principal objetivo é o de agir sobre um adversário de modo que a luta lhe seja impossível. Porém, Foucault faz uma ressalva ao explicar que se trata de uma situação bem particular.

Ao refletir sobre o primeiro sentindo, o autor chamou de estratégia de poder os conjuntos dos meios operados para fazer funcionar ou para manter um dispositivo de poder.



Podemos também falar de estratégia própria às relações de poder na medida em que estas constituem modos de ação sobre a ação possível, eventual, suposta dos outros. Podemos então decifrar em termos de “estratégias” os mecanismos utilizados nas relações de poder. Porém, o ponto mais importante é evidentemente a relação entre relações de poder e estratégias de confronto. Pois, se é verdade que no centro das relações de poder e como condição permanente de sua existência, há uma “insubmissão” e liberdades essencialmente renitentes, não há relação de poder sem resistência, sem escapatória ou fuga, sem inversão eventual; toda relação de poder implica, então, pelo menos de modo virtual, uma estratégia de luta, sem que para tanto venham a se superpor, a perder sua especificidade e finalmente a se confundir. (FOUCAULT, 1995, p. 248).



            Dessa relação de poder e estratégia, Foucault explica que existe atração recíproca, encadeamento indefinido e inversão perpétua. A relação de poder, a cada instante e em certos pontos, pode se torna um conforto entre adversários. “A cada instante também as relações de adversidade, numa sociedade, abrem espaço para emprego de mecanismos de poder” (FOUCAULT, 1995, p. 248-249). Assim, termina Foucault, o que tornaria a dominação de um grupo e as revoltas às quais ela se opõe em um fenômeno central da sociedade é o “fato de manifestarem, numa forma global e maciça, na escala do corpo social inteiro, a integração das relações de poder com as relações estratégicas e seus efeitos de encadeamento recíproco” (FOUCAULT, 1995, p. 249).



Referências



FOUCAULT, Michel. Sujeito e Poder. In: DREYFUS, H. & RABINOW, P. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: (para além do estruturalismo e da hermenêutica). Vera Porto Carrero. Rio de Janeiro: Universitária, 1995. pp. 231-239.