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segunda-feira, 1 de abril de 2013

VERDADE E PODER




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VERDADE E PODER
Michel Foucault
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 Orientação: Prof. Dr. Pedro Navarro
Organização: Rafael Andrade Moreira
E-mail:  r.andrademoreira@gmail.com



            Nesta entrevista, publicada no livro Microfísica do poder, Michel Foucault irá tratar da relação entre verdade, poder e discurso. A problemática que guia o filósofo em seus estudos, nos anos de 1950-55, se baseia no problema do estatuto político da ciência e as funções ideológicas que podiam veicular. As palavras que resumiam essa perspectiva eram saber e poder.
            Tomando um saber como a psiquiatria, em contraposição a física teórica ou a química orgânica, Foucault alerta que não poderíamos, em relação a esse campo do conhecimento, apreender de forma segura o entrelaçamento dos efeitos de poder e saber. Em o Nascimento da clínica a mesma questão foi posta. Em suas palavras, a medicina “certamente possui uma estrutura muito mais sólida do que a psiquiatria, mas também está enraizada profundamente nas estruturas sociais” (FOUCAULT, 2012, p. 36).
            Se atentando para esse fato, Foucault vai explicar que em certos saberes, como a biologia, a economia política, a psiquiatria e a medicina, os ritmos das transformações não obedeciam aos esquemas suaves e contínuos de desenvolvimento que normalmente se admitia. Diante disso, o seu problema não era a consideração da perpetuação da descontinuidade, em que se poderia ficar nela, mas como seria possível, em certos momentos e em certas ordens de saber, mudanças bruscas, precipitações de evolução que não corresponderiam às imagens tranquilas das continuidades. Para o filósofo o que está em questão não será o que rege os enunciados e a forma como eles se regem entre si para constituir um conjunto de proposições aceitáveis e suscetíveis de serem verificadas por procedimentos científicos. A questão não será a de saber qual seria o poder que agiria do exterior sobre a ciência, e sim quais os efeitos de poder que circulariam entre os enunciados científicos.
            Dessa problemática dos efeitos de poder, que derivam de uma rede discursiva, Foucault vai considerar o conceito de acontecimento. Para ele, ao se tratar do acontecimento, temos um problema em distingui-los: diferenciar as redes e os níveis a que pertencem e reconstituir os fios que os ligam e que fazem com que se engendrem uns aos outros. Para o autor de arqueologia do saber, as relações de sentidos, nesse caso, passariam a ser consideradas não como relações de sentidos, e sim como belicosas. Em suas próprias palavras,
Creio que aquilo que deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não linguística. Relação de poder, não relação de sentido. A história não tem “sentido”, o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas. (FOUCAULT, 2012, p. 41).

            Ou seja, para Foucault nem a dialética e nem a semiótica poderiam dar conta do que é inteligível sem levar em consideração esse “olhar oblíquo” para o caráter violento do funcionamento das relações de poder nas constituições dos sentidos.
            Ainda nesse quadro “metodológico”, Foucault observa como esses problemas de constituição poderiam ser resolvidos. Para isso, vai abordá-los no interior de uma trama histórica, em vez de remetê-los a um sujeito constituinte. Sua perspectiva se baseia em uma analítica que possa dar conta da constituição do sujeito na trama histórica. A isso ele vai chamar de genealogia. Ou seja, “uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes, dos discursos, dos domínios de objeto etc., sem ter que se referir a um sujeito, seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos, seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história” (FOUCAULT, 2012, p. 43).
            Ao abordar, por exemplo, a questão da repressão, sem levar em consideração essa perspectiva, ela poderia ser inadequada para dar conta do que existe justamente de produtor no poder. “Quando se definem os efeitos de poder pela repressão, tem-se uma concepção puramente jurídica desse mesmo poder; identifica-se o poder a uma lei que diz não. O fundamental seria a força da proibição” (FOUCAULT, 2012, p. 45). Para Foucault, o poder não pode ser analisado somente como uma instituição repressora, responsável somente por punir. O poder não somente pesa como uma força punitiva, ele permite, também, o “produzir”. Ele induz ao prazer, a forma saber e produz discurso.

Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir. Em Vigiar e punir o que eu quis mostrar foi como, a partir dos séculos XVII e XVIII, houve verdadeiramente um desbloqueio tecnológico da produtividade do poder. As monarquias da época clássica não só desenvolveram grandes aparelhos de Estado – exército, polícia, administração local –, mas instauraram o que se poderia chamar uma nova “economia” do poder, isto é, procedimentos que permitissem fazer circular os efeitos de poder de forma ao mesmo tempo contínua, ininterrupta, adaptada e “individualizada” em todo o corpo social. (FOUCAULT, 2012, p. 45).

            Essas novas técnicas seriam muito mais eficazes e muito menos caras e dispendiosas das técnicas usadas e que se baseavam sobre uma mistura de tolerância e o castigo.
            Assim, para Foucault, a verdade não poderia existir fora de uma relação de poder. A verdade “é deste mundo; ela é produzida nele graças as múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder” (FOUCAULT, 2012, p. 52). Em cada sociedade há regimes de verdades e políticas gerais de verdade. Isto é,

Os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2012, p. 52).

            Na sociedade, a “economia política” da verdade, segundo Foucault (2012), vai ter cinco características historicamente importantes. Segue o quadro.

“Economia política” da verdade (p. 52).
1ª Característica
A “verdade” é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem.
2ª Característica
Está submetida a uma constante incitação econômica e política. (necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder político).
3ª Característica
É objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circulação nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas)relativamente grande, nç(circulaça produçer cinco caracter falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as t
4ª Característica
É produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação).
5ª Característica
É objeto de debate político e de confronto social (as lutas “ideológicas”).
  
            Foucault vai pensar a verdade como um conjunto de regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder. Para o filósofo francês, os problemas políticos precisavam ser pensados não em termos de “ciência/ideologia”, mas em termos de “verdade/poder”. Para encerrar a discussão nessa entrevista, e deixar um pouco mais claro o seu intuito, Foucault (2012) propõe algumas proposições sobre o que considera a verdade em sua relação com o poder:

Seis proposições foucaultianas (p. 54)
Primeira proposição
Por “verdade”, entender um conjunto de procedimentos regulados para a produção, a lei, a repartição, a circulação e o funcionamento dos enunciados.
Segunda proposição
A “verdade” está circularmente ligada a sistema de poder, que a produzem e apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem. “Regime” de verdade.
Terceira proposição
Esse regime não é simplesmente ideológico ou superestrutural; foi uma condição de formação e desenvolvimento do capitalismo. É ele que, com algumas modificações, funciona na maior parte dos países socialistas.
Quarta proposição
O problema político essencial para o intelectual não é criticar os conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por uma ideologia justa; mas saber se é possível constituir uma nova política da verdade. O problema não é mudar a “consciência” das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade.
Quinta proposição
Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder – o que seria quimérico à medida que a própria verdade é poder –, mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.
Sexta proposição
A questão política não é erro, a ilusão, a consciência alienada ou a ideologia; é a própria verdade.


Referências

FOUCAULT, Michel. Verdade e poder. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. 25ª ed. São Paulo: Graal, 2012.







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