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sexta-feira, 19 de março de 2010

O enunciado em perspectiva discursiva

Por Pedro Navarro, líder do GEF - Grupo de Estudos Foucaultianos da UEM
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O texto do Jefferson Voss toca em um aspecto central dos estudos da linguagem, orientados por uma perspectiva discursiva: o enunciado. Mesmo dentro dessa perspectiva não há um consenso, se considerarmos que Pêcheux, Foucault e Bakhtin definem enunciado a partir de um campo epistemológico com orientações filósóficas distintas. No quadro do materialismo histórico, Pêcheux considera o enunciado como um ponto de deriva à interpretação. Trata-se, para esse autor, de uma sequência linguística suscetível de se tornar sempre outra, uma vez que as palavras mudam de sentido conforme a formação ideológica que as determinam. Para Courtine, em sua tese sobre o discurso comunista endereçado aos cristãos, a Análise do Discurso não tem uma concepção clara de enunciado, sendo essa dada por Foucault, em sua A arqueologia do saber. Ancorado nas teses de Foucault, Courtine traz para a Análise do Discurso uma discussão muito importante sobre a distinção entre formação e formulação dos sentidos. Nesse caso, a noção de enunciado, cunhada no interior de uma visada arqueológica, é recoberta por uma orientação materialista de linguagem. O enunciado, em Foucault, é quase, podemos afirmar, um conceito semiológico, uma vez que não se reduz ou somente se realiza por uma sequência linguísta: uma árvore genealógica ou uma tabela é um enunciado, dada a função enunciativa que lhe confere a possibilidade de falar sobre um objeto (referencial), ser assumido por um sujeito (modalidade enunciativa), recortar um domínio de coisas ditas alhures e algures (memória discursiva) e ser repetido (suporte materialidade). Em Foucault, o enunciado é a unidade mínima de análise, localizado entre as regras da língua e aquilo que é efetivamente dito pelos homens. Em relação ao arquivo (sistema de enunciabilidade), é a menor unidade de análise, que o analista recorta, coloca em relação a outras e define um quadro enunciativo que evidencia as relações e as regras de formação dos saberes. Para Bakhtin, o enunciado é também a unidade menor da comunicação, mas, nesse caso, trata-se, para o filósofo russo, daquilo por meio do qual os homens interagem entre si: o enunciado bakhtiniano é o que estabelce o dialogismo, uma vez que ele pede um sujeito respondente. Bom, é só um começo de conversa em torno dessa noção tão cara aos estudos linguísticos.
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2 comentários:

  1. Professor, o que ainda me deixa em dúvida é fazer a distinção, mesmo em Foucault, entre enunciado e discurso... Talvez, enunciado como unidade material e o discurso como efeitos que o enunciado suscita? Fica a pergunta...

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  2. Ao tentar apertar apenas em cima do texto para adaptar o cursor do mouse no meu monitor me deparo com a informação em pop-up (janela aberta): "Tentando roubar nossas informações?"

    Roubar informação pessoal? Quanto conservadorismo em um grupo que se diz Foucaultiano.

    Que pelo menos façam observação sobre os tão guardados direitos autorais em sete-chaves, mas abusem menos dos leitores, também foucaultianos, e não indiquem que alguém tá querendo roubar algo...

    Bebam mais do próprio Foucault e uma outra dose de Deleuze. Não só o séc XX vai ser deleuzeano, como também a própria internet.

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