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domingo, 3 de julho de 2011

A vida dos homens infames

Texto organizado por Alessandro Alves e Daniela Polla

“No momento em que se instaura um dispositivo para forçar a dizer o ‘ínfimo’, o que não se dizia, o que não merece nenhuma glória, o ‘infame’ portanto, um novo imperativo se forma, o qual vai discutir o que se poderá chamar a ética imanente ao discurso literário do Ocidente”


A Vida dos Homens Infames


No texto “A Vida dos Homens Infames”, Michel Foucault realiza uma espécie de reconstituição da conjuntura de poder – e do uso social deste – que regia os discursos oficiais e que acabou influenciando a literatura, bem como mobilizando uma série de outros discursos. Para tanto, o autor parte da seleção de textos como, por exemplo, petições, cartas régias, documentos de internamentos, entre outros, objetivando realizar não uma obra histórica, mas “uma antologia de existências”.
Inspirado pela leitura de um registro de internamento do início do século XVIII, Foucault resolve produzir um tipo de herbário de vidas singulares, de estranhos poemas. Ele justifica sua escolha de corpus pelas emoções e “impressões físicas” que documentos como o citado lhe provocavam. Porém, segundo ele, as impressões primeiras que o motivaram ficavam de fora das análises. Por conta disso, a ideia da realização de uma compilação de “poemas-vidas”, realizada em “A Vida dos Homens Infames”.
Para a seleção dos documentos, o autor coloca que quis que se tratassem sempre de existências reais. Portanto, todos os traços de literatura ou imaginação foram banidos. Além disso, revela-se a busca pelo maior número de relações possíveis com a realidade, bem como o desejo de falar sobre personagens sem traços de grandeza. Neste sentido, Foucault afirma que tratará de vidas reais que existiram em poucas palavras ou frases. De acordo com ele, “esses discursos realmente atravessaram vidas; essas existências foram efetivamente riscadas e perdidas nessas palavras” (FOUCAULT, 2006, p. 207).
Essas existências simples e, de certa forma, cinzas e obscuras, teriam permanecido esquecidas, não fosse sua relação com o poder. “O que as arranca da noite em que elas teriam podido, e talvez sempre devido, permanecer é o encontro com o poder” (FOUCAULT, 2006, p. 207). O texto nos apresenta aqui o fato dessas vidas simples e sem grandeza serem destinadas a não figurar nos discursos, sendo que somente puderam deixar rastros – mesmo que muito breves e por vezes enigmáticos – a partir de sua relação com o poder naquela época estabelecido.
Neste ponto do texto Foucault pressente críticas e afirma que podem até mesmo dizer que ele não quebra as barreiras, que não atravessa o discurso e que trata sempre sobre as relações de poder. Porém, rebate essas asserções revelando que o ponto mais intenso das vidas retratadas nos discursos analisados é justamente quando se encontram com o poder, fato que leva o autor mais uma vez a se debruçar sobre este ponto.
Estes “poemas-vidas” somente existiram por esse choque com o poder, que quis simplesmente aniquilá-las, bani-las, apagá-las. Os relatos destas vidas nos chegam apenas por acaso. É dessa infâmia que o autor nos quer falar. Assim, apesar de

Aparentemente infames, por causa das lembranças abomináveis que deixaram, dos delitos que lhe atribuem, do horror respeitoso que inspiraram, eles de fato são homens da lenda gloriosa, mesmo se as razões dessa fama são inversas àquelas que fazem ou deveriam fazer a grandeza dos homens. Sua infâmia não é senão uma modalidade da universal fama. (FOUCAULT, 2006, p. 210).


Após uma pausa, Foucault coloca que não faz uma grande compilação sobre a infâmia, que reuniria arquivos de todas as partes do mundo. Ao contrário, seleciona somente documentos que datam de 1660 até 1760, basicamente com a mesma fonte: arquivos do internamento, das petições ao rei e das cartas régias com ordem de prisão. Escolha justificada por uma familiaridade do autor com estes textos, bem como pelo fato do filósofo vislumbrar aí apenas o começo do estudo e, “em todo caso, um acontecimento importante em que se cruzam mecanismos políticos e efeitos de discurso.” (FOUCAULT, 2006, p. 211).
Os textos estudados, do século XVII e XVIII, possuem um tom diferenciado e próprio. Segundo Foucault, esses discursos

Têm um brilho, eles revelam no meandro de uma frase um esplendor, uma violência que desmente, ao menos aos nossos olhos, a pequenez do caso ou a mesquinhez bastante vergonhosa das intenções. As vidas mais dignas de pena aí são descritas com sd imprecações ou com a ênfase que parecem convir às mais trágicas. Efeito cômico, sem dúvida; há alguma coisa de irrisório ao se convocar todo o poder das palavras, e através delas a soberania do céu e da terra, em torno de desordens insignificantes ou de desgraças tão comuns (FOUCAULT, 2006, p. 211).

Após isso, aparece um exemplo de uma petição ao rei. Em seguida, o autor coloca que a grandiosidade e o rebuscamento da linguagem nesses textos é diretamente proporcional ao uso do poder estabelecido para impor os castigos solicitados.
Neste ponto do texto nos é apresentada a forma primeira com a qual o cristianismo tomava o poder sobre os fatos do dia-a-dia: a confissão. Apesar de falar do cotidiano, os discursos não eram registrados textualmente e se apagavam no momento mesmo do exercício da confissão. Mas, a partir do final do século VII, o mecanismo da confissão ficou ultrapassado e foi substituído pelos meios administrativos. Assim, o método religioso perdeu espaço para o mecanismo de registro e não mais do perdão.
Com a referida inversão, a forma de passagem do cotidiano ao discurso passou da confissão para as denúncias, as queixas, a inquirição, os relatórios. Tudo é registrado por escrito e passa a compor uma espécie de banco de dados. O que temos, então,

É um tipo de relações completamente diferente que se estabelece entre o poder, o discurso e o cotidiano, uma maneira totalmente diferente de o reger e de o formular. Nasce, para a vida comum, uma nova forma de mise em scène.” (FOUCAULT, 2006, p. 213).

Os instrumentos dessa novidade das relações entre poder, discurso e cotidiano são conhecidos: as petições, as cartas régias e os registros de internamentos diversos. O autor nos fala da intensidade e de certa beleza com as quais são revestidas as imagens dos homens que nos chegam com o rosto da infâmia, embora afirme o fato de esses documentos evocarem a ideia de um monarca absoluto. Nesta parte do texto Foucault nos revela que as “ordens do rei” contidas nos documentos analisados raramente partiam do próprio, como uma imposição de cima para baixo. Ao contrário, na maior parte do tempo eram solicitadas pela família, pelos amigos ou pelos vizinhos dos acusados, eventualmente por um membro representativo da sociedade. Apesar disso, o pedido não era concedido sem antes um procedimento de inquirição, destinado a avaliar a pertinência da demanda.
Ao considerar as características absolutistas do poder monárquico, percebe-se o fato de que, sabendo jogar o jogo do poder estabelecido, qualquer um pode ser, para o outro, um monarca, fazendo toda uma cadeia política cruzar o cotidiano dos homens infames.
Assim, torna-se especialmente relevante o fato de estas novas relações surgirem, fazendo circular uma infinidade de novos discursos. Houve, dessa forma, um apelo para se pôr em discurso “agitações e cada um dos pequenos sofrimentos.” (FOUCAULT, 2006, p. 216). Isto tudo nos propicia a percepção de que, durante muito tempo, apenas gestos grandiosos e dignos de admiração figuravam nos textos escritos; com o cotidiano atravessado por mecanismos do poder político tem-se o comum e o detalhe podendo fazer parte dos discursos.
Em sua forma inicial, estes discursos a respeito do dia-a-dia somente puderam circular em função do rei. Caso contrário, o banal não poderia ser dito. Surge desta remissão ao monarca, a forma singular, cativa ou suplicante desses discursos. Sendo assim,
Cada uma dessas pequenas histórias do dia-a-dia devia ser dita com a ênfase dos raros acontecimentos que são dignos de reter a atenção dos monarcas. Nunca, mais tarde, a morna administração policial nem os dossiês da medicina ou da psiquiatria encontrarão semelhantes efeitos de linguagem. (FOUCAULT, 2006, p. 217).


Além disso, o autor nos lembra que os autores destes textos do cotidiano vinham de condições muito baixas, sendo pouco ou nada alfabetizados, ocorrendo com isso a mistura de um vocabulário destinado ao tratamento de um rei com palavras inapropriadas ou violentas. A isto, Foucault chamou de disparate. Ocorre, para ele, um disparate entre a coisa dita e a maneira de dizê-las; o mesmo disparate se dá na relação dos que pedem, suplicam com aqueles que detêm todo o poder. Porém, esses discursos guardam “toda uma turbulência popular, toda uma miséria e um violência, toda uma ‘baixeza’ como se dizia, que nenhuma literatura nessa época teria podido acolher.” (FOUCAULT, 2006, p. 218).
Neste sentido, o autor alerta para o fato de todo este disparate ser apagado um dia. Isto porque o poder não mais se dará de forma absolutista e sim por meio de uma rede fina, diferenciada e contínua na qual atuam diversas instituições. Assim sendo, os homens infames passarão a ser vistos como ‘negócios’, crônicas ou casos.
Dando início ao encerramento do texto, Foucault nos fala da importância da massa ter podido falar de si mesma, mesmo por meio dos documentos analisados. Para ele, esta maquinaria do poder constituída nesses discursos dos homens infames, contribuiu para a constituição de novos saberes. O que ele afirma é que na virada dos séculos XVII e XVIII a relação entre discurso, cotidiano, vida e verdade se entrelaçam de forma a abarcar também a literatura.
Retoma-se neste ponto a ideia de que por muito tempo o cotidiano figurou nos discursos somente sob a forma de “chiste” ou do fabuloso, fato este que mudou graças às relações entre poder, cotidiano e discurso, vigentes nos séculos XVII e XVII. Com isso, passa-se a usar o discurso para fazer aparecer o que não aparece, o que se dá pela instauração de um dispositivo que força a dizer o ínfimo, constituindo o novo imperativo da literatura do Ocidente.
Assim, a literatura engaja-se a esta conjuntura social - apesar de não se reduzir a ela – na medida em que substitui o fabuloso pelo fictício e contribuiu para que o cotidiano fosse posto em discurso. Porém, ela vai além disso: a literatura busca e apresenta o cotidiano por baixo dele mesmo, fazendo dizer o inconfessável.

REFERÊNCIAS
FOUCAULT, M. A Vida dos Homens Infames. In: FOUCAULT, M. Estratégia, Poder-Saber. 2ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. (p. 203-222)

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